Mornas tardes


Na morna tarde do teu beijo, sentem-se rubores, sentem-se anseios. São veredas que calcorreio sem pressa, nem enfado. Savanas em labaredas onde me queimo ao desengano.

O Manuscrito de Saragoça


Ainda os livros da Penguin e ainda o cinema. Tendo visto recentemente a adaptação ao cinema do livro acima - um brilhante épico de quase 3 horas de duração pela mão do polaco Wojciech Has datado de 1965 - tornou-se imperativo para mim ler a obra que deu origem a tão fascinante filme.

Jan Potocki é o seu autor e a sua estrutura de caixas chinesas (histórias dentro de histórias, dentro de outras histórias) deixou-me intrigado para eu verificar até que ponto sou capaz de me manter a par de tantos sub-enredos sem perder o fio à meada. É que nem se põe em causa que eu não vá gostar do livro. De todo. Ele é "apenas" mais uma razão para eu considerar o século XIX o ponto máximo da literatura mundial.

Sadko

Acabo de ver um filme do mago russo Aleksandr Ptushko sobre o grande épico de Pushkin, SADKO. Um encantamento. Uma parada de sortilégios visuais sem fim, com a particularidade de ser pontuada com a música de Rimsky-Korsakov. Sinto-me mimado, estragado com tanta benesse.

Sadko é o herói com sentimentos nobres e coração puro que faz brilhar os olhos de qualquer criança e derreter o coração de qualquer adulto. Parte em busca do pássaro da felicidade para consolar os pobres de Novgorod, acabando por descobrir que a felicidade se encontra não em países longínquos, mas sim na nossa terra natal. Isto pode parecer demasiado patriótico, tendo em conta que o país de origem desta história é a Rússia. Mas já dizia a Dorothy: "There's no place like home". Concordo cada vez mais.

Cartilagens


Foi na cartilagem das tuas penas que a viagem se escreveu, cíclica e insistente como a vaga e apagando o rasto atrás de si.

As epifanias, embora diárias, eram dadas de comer aos cães alados pela calada da madrugada.

Contos de reis


A iconografia plástica da Europa de Leste sempre me fascinou. Talvez tenha a ver com o facto de ter crescido a ver curtas-metragens de animação checas, polacas, russas e de outros países dessa parte do mundo que parece parada no tempo. Um tempo que parece pertencer ao imaginário dos contos de fadas, com as suas bonecas de porcelana com roupas de renda e chita e janelas de casas que dão para intermináveis campos de girassóis ou bravias estepes.

A colagem que vêm acima pertence ao realizador Sergei Parajanov e é um perfeito exemplo daquilo que acabo de falar. Há todo um rusticismo aliado a um romantismo tão próprio daquela parte do mundo que é difícil definir. Resta-nos admirar.

Crâneo


Vieste em jeito de manhã-gaivota com as mãos frias e um crâneo ao ombro. Sal servido em salva de prata.

A carne, esquartejava-a com luxúria e os beijos saíam secos e podres.

Ano felino

As mudanças de estação e passagens de ano são alturas com um cariz de magia acrescido. Da genuína. Daquela que não é ilusionada, daquela que, por muito que se tente, ainda não foi descortinada.

Neste novo ano que entra, um outro irá ainda fazer a sua majestosa entrada - o chinês. 2010 irá ser o ano do Tigre, o meu signo. Domá-lo ou deixar-se domar por ele, é no equilíbrio que se encontram todas as respostas.

gaveta de arrumos