Fogueira


As epifanias sacras que lhe escorriam do coração eram como visões de anjos em vagarosa procissão.

E no alto do clamor, o reflexo de uma fogueira que ardia e ardia.

Volta


E ao terceiro dia a resposta veio com a preia-mar. Insólito evento. Agarras-me e levas-me, unos no bosque de (a)fetos, com a tua casca de carvalho a macular-me a fronte e eu, a entregar-me e tu, a reclamares-me.

Sinto-me em falta e sinto-te falta. Volta.

Vem


Já há muito tempo que não dedicava um poema ao Mar, norte da minha bússola interior. Acabo de descobrir este singelo e sugestivo poema de Emily Dickinson.  

Chama-se, apropriadamente, The Sea said "Come" to the Brook.




The Sea said "Come" to the Brook --
The Brook said "Let me grow" --
The Sea said "Then you will be a Sea --
I want a Brook -- Come now"!

The Sea said "Go" to the Sea --
The Sea said "I am he
You cherished" -- "Learned Waters --
Wisdom is stale -- to Me"

Casa de água

Porque o barulho das águas me limpa os sentidos, mesmo quando em chorro me ajuda ao choro e ao pranto.

Já a chuva, insistente e fria, emaranha-me a mente e suja-me o pensar.

Porque a razão vive numa casa de água, onde os peixes entram pelas janelas abertas sem pedir licença.

Pirâmide


"I want to make a poem of my life."

Draconiano


Nos draconianos peitos do teu desamor. Nos nefastos olhares do meu rubor. Nos enganadores desencontros das águas.

Caça e devora-me que já tarda a hora.

Pássaro

Hoje nasceu a minha sobrinha e o milagre da vida voltou a manifestar-se. Do sangue e do sémen nasce uma criatura perfeita na sua complexidade de ser humano.

Como padrinho, dou-lhe a benção dos pássaros - a Liberdade. Que saiba sempre ser livre e que nunca se prenda ou sinta presa a nada que não interessa. Que saiba sempre planar sobre todas as dificuldades e que nunca perca a graça tão própria dessas delicadas e frágeis criaturas aladas.

E que voe. E voe. E voe. E que nos faça sonhar enquanto persegue os seus sonhos.

gaveta de arrumos