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A raiva


«Jimmy: They all want to escape from the pain of being alive. And, most of all, love. It's no good trying to fool yourself about love. You can't fall into it like a soft job, without dirtying up your hands. It takes muscles and guts. And if you can't bear the thought of messing up your nice, clean soul - you'd better give up the whole idea of life, and because you'll never make it as a human being. It's either this world of the next.»

[...]

«Jimmy: One day, when I'm no longer spending my days running a sweet-stall, I may write a book about us all. It's all here. (slapping his forehead) Written in flames a mile high. And it won't be recollected in tranquility either, picking daffodils with Auntie Wordsworth. It'll be recollected in fire, and blood. My blood.»

John Osborne, in Look Back in Anger (1956)

A mágoa

Barco de quilha rota, a desnorte de um encalhamento num escolho sem escolha, sem vontade própria.

À espera da fenomenal vaga que a lave, que a leve, para longe do seu peso fantasmal. E a vaga vem, e a vaga vai. Vem e vai. Vem. Vai.

E a preia-mar invernosa mostra-lhe o caminho rumo ao campo das estrelas. E a praia, à beira-mar, vai-se limpando e alindando rumo a um verão invencível.

Estátuas de Sal

As memórias incómodas são seres estranhos, entranhados nas fissuras de quem fomos e de quem somos. São como figuras sem cara, sentadas num sofá anónimo de uma qualquer sala anódina.

Inertes. Mas sempre presentes. À espera de algo que as desperte daquela letargia intemporal. Marasmos leprosos. Estranham-se pelos sonhos adentro e maculam a vigência do restante dia.

Fantasmas, chamam-lhes. Animais de hábito. Animais de companhias indesejadas, chamo-lhes eu. Maus hábitos que devem ser tratados com indiferença, a bem de os perder. E à conta de tanta indiferença, transparecem em direção ao esquecimento.

Não olhar para trás é a melhor forma de não nos transformarmos em estátuas de sal.

Recolher



Agarrai nas vesgas moles
e lançai-as aos biltres de brandas fronhas!
De mortalhas trajadas,
não passais já de carne fétida
a quem apraz maldizer
em vil acto de excomunhão!

Desviai-me a mão
de tal enfermo propósito,
que de mim próprio temo!
Sabei que as minhas dolores
são profundas e antigas,
porque vossas.
Soai agora a hora do recolher!

Ó nauseada vontade
de um povo sem grito,
de um rosto sem brado!
Dai de comer a essa fome
que vos come,
dai novo mister a essa Alma
que por ora jaz sem serventia!

Musa


À semelhança de uma outra ocasião, fica aqui um poema meu a pedido de outros. Neste caso, a premissa era pegar num primeiro verso de um poema de Régio e improvisarmos o resto, como melhor assim o entendêssemos.

Em itálico, encontramos então o José e logo a seguir o Lino. Esta ideia podia pegar. Intertextualidade poética no seu melhor.








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Centos de doidos vivem neste hospício
e cantam
um qualquer quarto andamento
de um concerto para uma voz
sumida.

Torna-me o verbo claro e infinito,
tolda-me a Musa o som de um reco.

Aconteci-me assim,
néscio com tanta catadupa rítmica.
Faz-se o desenquadramento à rima,
porque o vocábulo, esse não mente
quando vem do ventre.

Centos de doidos vivem neste hospício
e cantam.
As suas vozes não são desconhecidas,
são todas elas minha e minhas.

Fogueira


As epifanias sacras que lhe escorriam do coração eram como visões de anjos em vagarosa procissão.

E no alto do clamor, o reflexo de uma fogueira que ardia e ardia.

Casa de água

Porque o barulho das águas me limpa os sentidos, mesmo quando em chorro me ajuda ao choro e ao pranto.

Já a chuva, insistente e fria, emaranha-me a mente e suja-me o pensar.

Porque a razão vive numa casa de água, onde os peixes entram pelas janelas abertas sem pedir licença.

Draconiano


Nos draconianos peitos do teu desamor. Nos nefastos olhares do meu rubor. Nos enganadores desencontros das águas.

Caça e devora-me que já tarda a hora.

Mornas tardes


Na morna tarde do teu beijo, sentem-se rubores, sentem-se anseios. São veredas que calcorreio sem pressa, nem enfado. Savanas em labaredas onde me queimo ao desengano.

Cartilagens


Foi na cartilagem das tuas penas que a viagem se escreveu, cíclica e insistente como a vaga e apagando o rasto atrás de si.

As epifanias, embora diárias, eram dadas de comer aos cães alados pela calada da madrugada.

Crâneo


Vieste em jeito de manhã-gaivota com as mãos frias e um crâneo ao ombro. Sal servido em salva de prata.

A carne, esquartejava-a com luxúria e os beijos saíam secos e podres.

Coral


Deixem passar os arrastados esqueletos pelo quarto de coral. Não serão belos, não serão nobres?

Na côncava córnea do meu pasmo, tu consentes-me em oblíquos amplexos.

Brumas


Ténue neblina sobre a linha do meu pensamento, sudário de minha alma que ateima.

Fôlegos renovados e promessas breves em jeito de oração.

Viragem


E a viragem acontece. Libertem-se as amarras. Faço-me às águas em busca de bom porto.

Aqui


Se alguma vez se perguntaram sobre a origem do nome deste blog, ele vem de um poema meu, talvez o meu favorito de todos que até agora escrevi. Fiquem com ele.

Amada morada


Onde sátiros e sodomitas dormem
Nus e inocentes
Jazendo
Sob tumulares luares

Onde sátiras e desditas escorrem
De bocas entreabertas
Rangendo
Esgares e maus-olhares

Onde pajens sob lajes
Fétidas e gélidas
Guardam
Sagrados segredos

Aí me encontras
Na minha amada morada
Não escolhida, mas encontrada

Galeria de Monstros


Fadados para não mais serem olvidados, a caixa secreta de todas as manhãs inusitadas. Marcados para a matança dos esgares no tiro certo das noites sem estrelas nem luares.

Rosna o cão com sede de sangue. Saciá-lo, jamais.

Reboliços


Sinto-me como um quarto em reboliço. Cansei de tanto e tanto bulício. Necessito de fronhas lavadas e de frontes descansadas.

Vento Norte, dá-me novos fôlegos e deixa-me espraiado em amigos regaços.

Solstícios


E assim te anuncias, majestosa e ímpar, a nova estação. Estival de sua graça, tens-me a mim como vestal em venerosa vénia.

Opulenta na tua abundância, reclamas o fogo do sol enquanto despertas o sal na pele dos amantes breves.

Olhar


Mágoa no meu cerne. Trago-a entravada na garganta. Desatara eu as cordas vocais para te consolar. E para te arrancar um sorriso nesse olhar perdido. Perdoa.

Em chamas


Sinto-me como uma casa em chamas. Tudo em mim arde, tudo em mim ferve. Sinto-me quando me chamas. Porque me ralhas, porque me queres.

Rasga-me então e dá-me de comer ao fogo.


gaveta de arrumos