Cárceres
Um dos últimos casos em que isso me aconteceu, teve a ver com cinema. Especificamente, com os dois últimos filmes que vi numa sala de cinema, em datas diferentes: "A Hidden Life", de Terrence Malick; e "J'Accuse", de Roman Polanski. Só muito recentemente me apercebi que, tanto um, como o outro, abordam questões de integridade moral, cujo enredo envolve o aprisionamento da figura central à trama da história, por razões expiatórias favorecendo um poder central maior.
Nunca vergando, nunca cedendo, ambas as personagens tornar-se-iam exemplos de conduta moral, não escapando, no entanto, à chancela de mártires -- condição sine qua non nestes casos. Ambas as histórias, coincidentemente também, são verídicas. Há aqui, certamente, uma verdade maior a apreender.
quarta-feira, fevereiro 26, 2020 | Etiquetas: Cinema, Joaquín Sorolla Bastida, Pintura | 0 Comments
Barca de noz

Ver os filmes de Alexander Ptushko é depararmo-nos com a nossa infância. Mesmo que ela não tenha sido vivida na Rússia que tanto ama, nem que envolva termos lido algo de Pushkin, o grande poeta. A fantasia está toda neles contida e ainda faz sonhar muitos adultos. E é exactamente Pushkin o catalizador destas minhas linhas de hoje, inspirando-me e fascinando-me em iguais partes. Fiquem com um poema que me apanhou de surpresa:
IMITAÇÃO AO ÁRABE
Meu carinhoso e meigo rapaz,
Não cores, que meu és para sempre!
Eis que desnuda o fogo em nós
Esta vida única existente.
Não temas outros de riso atroz,
Pois em nós mesmos nos desdobramos:
Tal qual duas partes de uma noz,
Sob a mesma casca nos achamos.
domingo, abril 11, 2010 | Etiquetas: Cinema, Gravura, Poesia | 0 Comments
Laços Brancos
Ontem vi um filme onde o uso de um laço branco era um sinal de pureza e inocência. O curioso era que os que os usavam - as crianças - eram tudo menos puras e inocentes. De certa forma, este post é uma espécie de continuação imprevista de um outro logo abaixo a estas linhas.
Hoje, dei por mim a pesquisar sobre um dos meus personagens históricos favoritos: o Barão de Munchhausen. Sim, ele existiu mesmo, embora a sua reputação de mentiroso o preceda e o torne quase mítico e irreal, tais são as histórias mirabolantes que se fabricaram à volta da sua vida. Isto tudo levou-me a pensar e constatar que, inconscientemente, procuro me libertar e em parte compreender a minha situação actual, em que parte da minha vida está a ser vivida junto de pessoas impregnadas de falsidade. É a parte racional do meu cérebro a servir-se da zona instintiva para se situar. Ou, pelo menos, assim penso.
E penso também que prefiro as mentiras inócuas do amado Barão. Definitivamente.
quarta-feira, fevereiro 17, 2010 | Etiquetas: Cinema, Gustave Doré, Ilustração | 0 Comments
Falsas inocências

Há um momento no filme de Jack Clayton - The Innocents - onde Miles, o menino da casa onde se passa a tétrica história, recita um poema com tal candura e maturidade que me faz arrepiar. Ele aqui segue em toda a sua beleza moribunda:
What shall I sing to my lord from my window?
What shall I sing, for my lord will not stay?
What shall I sing, for my lord will not listen?
Where shall I go, for my lord is away?
Whom shall I love when the moon is arisen?
Gone is my lord, and the grave is his prison.
What shall I say when my lord comes a-calling?
What shall I say, when he knocks on my door?
What shall I say, when his feet enter softly,
Leaving the marks of his grave on my floor?
Enter my lord, come from your prison.
Come from your grave, for the moon is arisen.
sábado, fevereiro 13, 2010 | Etiquetas: Cinema, Poesia | 0 Comments
Sadko
Acabo de ver um filme do mago russo Aleksandr Ptushko sobre o grande épico de Pushkin, SADKO. Um encantamento. Uma parada de sortilégios visuais sem fim, com a particularidade de ser pontuada com a música de Rimsky-Korsakov. Sinto-me mimado, estragado com tanta benesse.
Sadko é o herói com sentimentos nobres e coração puro que faz brilhar os olhos de qualquer criança e derreter o coração de qualquer adulto. Parte em busca do pássaro da felicidade para consolar os pobres de Novgorod, acabando por descobrir que a felicidade se encontra não em países longínquos, mas sim na nossa terra natal. Isto pode parecer demasiado patriótico, tendo em conta que o país de origem desta história é a Rússia. Mas já dizia a Dorothy: "There's no place like home". Concordo cada vez mais.
terça-feira, janeiro 19, 2010 | Etiquetas: Cinema, Orientalismos, Pintura | 0 Comments
Contos de reis

A iconografia plástica da Europa de Leste sempre me fascinou. Talvez tenha a ver com o facto de ter crescido a ver curtas-metragens de animação checas, polacas, russas e de outros países dessa parte do mundo que parece parada no tempo. Um tempo que parece pertencer ao imaginário dos contos de fadas, com as suas bonecas de porcelana com roupas de renda e chita e janelas de casas que dão para intermináveis campos de girassóis ou bravias estepes.
A colagem que vêm acima pertence ao realizador Sergei Parajanov e é um perfeito exemplo daquilo que acabo de falar. Há todo um rusticismo aliado a um romantismo tão próprio daquela parte do mundo que é difícil definir. Resta-nos admirar.
quarta-feira, janeiro 06, 2010 | Etiquetas: Cinema, Colagens | 0 Comments
Outros tempos

Pode haver quem passe por este lugar e pense que eu passo demasiado tempo a falar sobre o tempo. Em minha defesa, eu digo que não se passa o tempo suficiente a falar sobre o tempo. Que o diga também o realizador japonês Yasujiro Ozu que praticamente fez carreira a falar sobre o tempo que passa e o tempo que faz lá fora. São testemunha disso os lindos nomes que pôs aos seus filmes: Outono Tardio, Flor do Equinócio, O Fim do Verão, Bom Dia, Uma Tarde de Outono ou ainda Crepúsculo em Tóquio.
quarta-feira, setembro 16, 2009 | Etiquetas: Cinema, Nostalgias | 0 Comments
Alice
Há dias, em amena cavaqueira com amiga de longa data, falávamos do próximo filme de Tim Burton: uma nova adaptação da obra chave de Lewis Carroll, Alice's Adventures in Wonderland.
Sendo este um dos meus livros favoritos e uma das peças fundamentais para eu me perceber e os outros a mim, expressei a minha vontade de Burton assinar a versão cinematográfica definitiva desta obra. É que já tantos tentaram e não chegaram minimamente "lá", que já começa a cansar.
Ela, sábiamente, disse que esperava que tal não acontecesse, o que me deixou intrigado. Continuando, explica que todas as adaptações são igualmente boas porque, dada a riqueza da obra-mãe, todas são igualmente válidas. Concordei. Mas ainda assim, espero que esta nova adaptação seja, no mínimo, assombrosa.
Assombrosas são também as ilustrações que Arthur Rackham fez para a obra de Carroll. Aqui ao menos podemos afirmar sem margem para dúvidas que estamos perante uma versão definitiva.
Sublime. O cognome de melhor ilustrador britânico de sempre, com direito a exposições póstumas nos maiores museus de todo o mundo é mais do que justificado.
Sublime.
segunda-feira, maio 11, 2009 | Etiquetas: Arthur Rackham, Cinema, Lewis Carroll, Livros, Tim Burton | 0 Comments
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