Ócios de estio
sábado, julho 18, 2020 | Etiquetas: Mar, Mitologias, Pintura | 0 Comments
Himorogi
terça-feira, julho 07, 2020 | Etiquetas: Ilustração, Japonismo, Mar, Sophia de Mello Breyner Andresen | 0 Comments
Mátria
O Mar é a minha mátria. Sentir as ondas em fina renda espraiarem-se a meus pés. Todo eu nu, em sentimentos. A temperatura atlântica acorda-me de encontro à vastidão, toda minha. Vagas em cadência, colcheias de marulhos para os atentos. Sereias e melusinas em surdina. Tritões e varões alertas no desengano da nona vaga, mística. Entro. Mar adentro. E a metamorfose acontece. Um ser anfíbio latente toma conta de mim. E, logo, pertenço. E existo. Acolhido por esta força líquida anímica que me envolve de modo completo e certo como na véspera do meu nascimento. E me cobre com uma película placentosa, neste ventre caldoso de algas e peixes e vida microscópica. Nesta pertença, nesta existência, tudo se resume ao cósmico, ao primordial, ao essencial. E, logo, renasço. E empurro-me de volta à praia de todos os recomeços. Todo eu nu, em sentimentos. Sentir as ondas em fina renda espraiarem-se a meus pés. O Mar é a minha mátria.
segunda-feira, março 23, 2020 | Etiquetas: Artur Pastor, Fotografia, Mar, Novos Fôlegos | 0 Comments
A voz do mar
Sophia, sempre Sophia a invadir-me os meus dias. Hoje, ao ler o conto Praia incluído nos seus «Contos Exemplares», encontro estas linhas tão em sintonia com o que por aqui escrevi ontem. É o mar, sempre o mar a invadir-me.
"Cá fora, mal passámos a porta que dava para a varanda, o grande sopro do mar cobriu-nos, rodeou-nos, invadiu-nos.
O nevoeiro tinha transfigurado tudo.
Agora só cheirava a mar. Um perfume apaixonado de algas escorria das árvores. Lua e estrelas não se viam. Nem os plátanos se viam. Só se viam muros brancos no nevoeiro branco. Tudo estava imóvel e suspenso.
Só a voz do mar se ouvia, espantosamente real, recriando-se incessantemente.
E parecia que os grandes, verdes e violentos espaços marinhos, como sendo o nosso próprio destino, nos chamavam."
sábado, outubro 12, 2019 | Etiquetas: Carl Olof Larsson, Mar, Pintura, Sophia de Mello Breyner Andresen | 0 Comments
Rückenfiguren
O mar come-nos o olhar. A sua gula é tamanha de medonha e hipnotiza ao ponto de nos embrulhar na rebentação das suas vagas. Cadências inconstantes de vidas arremessadas à sua voracidade. O mar come-nos de volta à nossa origem.
sexta-feira, outubro 11, 2019 | Etiquetas: Artur Pastor, Fotografia, Mar | 0 Comments
O Mar
Ramalho Ortigão, in As Praias de Portugal (1876)
sexta-feira, agosto 23, 2019 | Etiquetas: Fotografia, Mar | 0 Comments
Alvas memórias
Com o teu jardim de areia e flores marinhas
E o teu silêncio intacto em que dorme
O milagre das coisas que eram minhas.
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
A ti eu voltarei após o incerto
Calor de tantos gestos recebidos
Passados os tumultos e o deserto
Beijados os fantasmas, percorridos
Os murmúrios da terra indefinida.
Em ti renascerei num mundo meu
E a redenção virá nas tuas linhas
Onde nenhuma coisa se perdeu
Do milagre das coisas que eram minhas.
Sophia de Mello Breyner Andresen, in Poesia I (1944)
quinta-feira, agosto 22, 2019 | Etiquetas: Ilustração, Mar, Poesia, Raul Lino, Sophia de Mello Breyner Andresen | 0 Comments
O Menino do Mar
Quase não me conhecia já assim. De versos tão ingénuos e tão inacabados. Partilho-o, com as certezas da sua verdade imóvel no tempo. E, sempre, sem reservas.
O Menino do Mar
Ele traz-me canções
Encontradas nas ondulações
de Julhos distantes
Elas falam de marujos
Embrulhados no marulho
de uma concha quebrada
O Menino do Mar
Ensinou-me a cantar
e eu segui-o
Os meus versos
Envia-mos dispersos
como brisas à deriva
E eu continuo atrás dele
terça-feira, julho 16, 2019 | Etiquetas: Mar, Maxfield Parrish, Nostalgias, Pintura, Poesia | 0 Comments
O Mar misturado ao Sol
L'Éternité
Elle est retrouvée.
Quoi? - L'Éternité.
C'est la mer allée
Avec le soleil.
Ame sentinelle.
Murmurons l'aveu
De la nuit si nulle
Et du jour en feu.
Des humains suffrages,
Des communs élans
Là tu te dégages
Et voles selon.
Puisque de vous seules,
Braises de satin,
Le Devoir s'exhale
Sans qu'on dise: enfin.
Là pas d'esperance,
Nul orietur.
Science avec patience,
Le supplice est sûr.
Elle est retrouvée.
Quoi? - L'Éternité.
C'est la mer allée
Avec le soleil.
Arthur Rimbaud
quarta-feira, julho 10, 2019 | Etiquetas: Arthur Rimbaud, Mar, Poesia | 0 Comments
Amarar
"Dão-me no peito nu os primeiros raios do sol, que eu esperava erguido à proa do bote, e atiro-me à água onde mergulho de olhos abertos, em voluptuoso torvelinho de prata lactescente. Tenho a ilusão de uma possível metamorfose, com arranques de golfinho, pelo lençol da água esverdinhada onde todo o meu corpo se embebe de fresquidão..."
Manuel Teixeira Gomes, in Agosto Azul (1904)
terça-feira, julho 09, 2019 | Etiquetas: Livros, Manuel Teixeira Gomes, Mar | 0 Comments
Vem
Já há muito tempo que não dedicava um poema ao Mar, norte da minha bússola interior. Acabo de descobrir este singelo e sugestivo poema de Emily Dickinson.
Chama-se, apropriadamente, The Sea said "Come" to the Brook.
The Sea said "Come" to the Brook --
The Brook said "Let me grow" --
The Sea said "Then you will be a Sea --
I want a Brook -- Come now"!
The Sea said "Go" to the Sea --
The Sea said "I am he
You cherished" -- "Learned Waters --
Wisdom is stale -- to Me"
quinta-feira, dezembro 02, 2010 | Etiquetas: Mar, Poesia | 0 Comments
Oceano Nox
Junto do mar, que erguia gravemente
A trágica voz rouca, enquanto o vento
Passava como o vôo do pensamento
Que busca e hesita, inquieto e intermitente,
Junto do mar sentei-me tristemente,
Olhando o céu pesado e nevoento,
E interroguei, cismando, esse lamento
Que saía das coisas, vagamente...
Que inquieto desejo vos tortura,
Seres elementares, força obscura?
Em volta de que idéia gravitais?
Mas na imensa extensão, onde se esconde
O Inconsciente imortal, só me responde
Um bramido, um queixume, e nada mais...
Antero de Quental, in "Sonetos"
segunda-feira, julho 27, 2009 | Etiquetas: Antero de Quental, Mar, Poesia | 0 Comments
As Flores do Mar
O Homem e o Mar
Homem livre, o oceano é um espelho fulgente
Que tu sempre hás-de amar. No seu dorso agitado,
Como em puro cristal, contemplas, retratado,
Teu íntimo sentir, teu coração ardente.
Gostas de te banhar na tua própria imagem.
Dás-lhe beijo até, e, às vezes, teus gemidos
Nem sentes, ao escutar os gritos doloridos,
As queixas que ele diz em mística linguagem.
Vós sois, ambos os dois, discretos tenebrosos;
Homem, ninguém sondou teus negros paroxismos,
Ó mar, ninguém conhece os teus fundos abismos;
Os segredos guardais, avaros, receosos!
E há séculos mil, séc'ulos inumeráveis,
Que os dois vos combateis n'uma luta selvagem,
De tal modo gostais n'uma luta selvagem,
Eternos lutador's ó irmãos implacáveis!
Charles Baudelaire, in "As Flores do Mal"
Tradução de Delfim Guimarães
quinta-feira, junho 18, 2009 | Etiquetas: Charles Baudelaire, Mar, Poesia | 0 Comments
Lamúria ao Mar

A Sea Dirge
There are certain things--as, a spider, a ghost,
The income-tax, gout, an umbrella for three--
That I hate, but the thing that I hate the most
Is a thing they call the Sea.
Pour some salt water over the floor--
Ugly I'm sure you'll allow it to be:
Suppose it extended a mile or more,
That's very like the Sea.
Beat a dog till it howls outright--
Cruel, but all very well for a spree:
Suppose that he did so day and night,
That would be like the Sea.
I had a vision of nursery-maids;
Tens of thousands passed by me--
All leading children with wooden spades,
And this was by the Sea.
Who invented those spades of wood?
Who was it cut them out of the tree?
None, I think, but an idiot could--
Or one that loved the Sea.
It is pleasant and dreamy, no doubt, to float
With "thoughts as boundless, and souls as free":
But, suppose you are very unwell in the boat,
How do you like the Sea?
There is an insect that people avoid
(Whence is derived the verb "to flee").
Where have you been by it most annoyed?
In lodgings by the Sea.
If you like your coffee with sand for dregs,
A decided hint of salt in your tea,
And a fishy taste in the very eggs--
By all means choose the Sea.
And if, with these dainties to drink and eat,
You prefer not a vestige of grass or tree,
And a chronic state of wet in your feet,
Then--I recommend the Sea.
For I have friends who dwell by the coast--
Pleasant friends they are to me!
It is when I am with them I wonder most
That anyone likes the Sea.
They take me a walk: though tired and stiff,
To climb the heights I madly agree;
And, after a tumble or so from the cliff,
They kindly suggest the Sea.
I try the rocks, and I think it cool
That they laugh with such an excess of glee,
As I heavily slip into every pool
That skirts the cold cold Sea.
Lewis Carroll
domingo, maio 31, 2009 | Etiquetas: Lewis Carroll, Mar, Poesia | 0 Comments
A voz do Mar
Passei o Dia Ouvindo o que o Mar Dizia
Eu hontem passei o dia
Ouvindo o que o mar dizia.
Chorámos, rimos, cantámos.
Fallou-me do seu destino,
Do seu fado...
Depois, para se alegrar,
Ergueu-se, e bailando, e rindo,
Poz-se a cantar
Um canto molhádo e lindo.
O seu halito perfuma,
E o seu perfume faz mal!
Deserto de aguas sem fim.
Ó sepultura da minha raça
Quando me guardas a mim?...
Elle afastou-se calado;
Eu afastei-me mais triste,
Mais doente, mais cansado...
Ao longe o Sol na agonia
De rôxo as aguas tingia.
«Voz do mar, mysteriosa;
Voz do amôr e da verdade!
- Ó voz moribunda e dôce
Da minha grande Saudade!
Voz amarga de quem fica,
Trémula voz de quem parte...»
. . . . . . . . . . . . . . . .
E os poetas a cantar
São echos da voz do mar!
António Botto, in 'Canções'
quinta-feira, maio 21, 2009 | Etiquetas: António Botto, Mar, Poesia | 0 Comments
Tsunami

Mar, necessito-te. Purga-me com a tua espuma milenar e deixa-me sem ter no que pensar.
Levanta as tuas ondas e, vaga a vaga, afoga as desditas uma a uma. Por fim, embala-me no teu colo e deixa-me dormir e dormir.
terça-feira, maio 19, 2009 | Etiquetas: Hokusai, Máculas, Mar, Pintura | 0 Comments
A menina do Mar
Viver sem o mar à minha beira é impensável. Habituei-me a ele. Talvez por ter crescido sempre a seu lado. Sophia perceber-me-ia. Dedicou-lhe muitos dos seus poemas. Deixo-vos aqui um dos meus preferidos. O primeiro de muitos sobre o Mar.
Pudera eu ter assim a voz tão cristalina e depurada. Tenho-te a ti, Mar. E basta-me por ora.
Fundo do mar
No fundo do mar há brancos pavores,
Onde as plantas são animais
E os animais são flores.
Mundo silencioso que não atinge
A agitação das ondas.
Abrem-se rindo conchas redondas,
Baloiça o cavalo-marinho.
Um polvo avança
No desalinho
Dos seus mil braços,
Uma flor dança,
Sem ruído vibram os espaços.
Sobre a areia o tempo poisa
Leve como um lenço.
Mas por mais bela que seja cada coisa
Tem um monstro em si suspenso.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Obra Poética I
domingo, abril 26, 2009 | Etiquetas: Mar, Poesia, Sophia de Mello Breyner Andresen | 0 Comments
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