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Ócios de estio


Estender-me perpendicularmente sob a oblíqua luz do sol da meia tarde e banhar-me no caldo primordial de uma preia-mar. Perfeito exercício de estio. Absolvidos ócios de um estilo que se quer sempre cada vez mais mediterrâneo, cada vez mais insular. 

Os estios pedem. Reclamam-se. Roubam-nos as forças. Ficam mais fortes com elas. Apolo e Dionísio em tensão fraternal máxima. Se o caos tem racionalidade, é a razão própria que valida a tragédia.

Himorogi

«Há lugares sagrados, sabe? Mas isso são coisas que se escrevem nos contos e nos poemas e que não se dizem numa entrevista. É a casa da Granja que surge no poema "Casa branca em frente ao mar", no conto "A Casa" e n'A Menina do Mar. A Menina do Mar é inspirada numa história que a minha mãe me contava: nos rochedos morava uma menina muito pequena... Essa menina representava para mim a felicidade perfeita porque almoçava no mar, dormia no mar, vivia no mar...»

Sophia de Mello Breyner Andresen

Mátria

O Mar é a minha mátria. Sentir as ondas em fina renda espraiarem-se a meus pés. Todo eu nu, em sentimentos. A temperatura atlântica acorda-me de encontro à vastidão, toda minha. Vagas em cadência, colcheias de marulhos para os atentos. Sereias e melusinas em surdina. Tritões e varões alertas no desengano da nona vaga, mística. Entro. Mar adentro. E a metamorfose acontece. Um ser anfíbio latente toma conta de mim. E, logo, pertenço. E existo. Acolhido por esta força líquida anímica que me envolve de modo completo e certo como na véspera do meu nascimento. E me cobre com uma película placentosa, neste ventre caldoso de algas e peixes e vida microscópica. Nesta pertença, nesta existência, tudo se resume ao cósmico, ao primordial, ao essencial. E, logo, renasço. E empurro-me de volta à praia de todos os recomeços. Todo eu nu, em sentimentos. Sentir as ondas em fina renda espraiarem-se a meus pés. O Mar é a minha mátria.







A voz do mar


Sophia, sempre Sophia a invadir-me os meus dias. Hoje, ao ler o conto Praia incluído nos seus «Contos Exemplares», encontro estas linhas tão em sintonia com o que por aqui escrevi ontem. É o mar, sempre o mar a invadir-me.

"Cá fora, mal passámos a porta que dava para a varanda, o grande sopro do mar cobriu-nos, rodeou-nos, invadiu-nos.
O nevoeiro tinha transfigurado tudo.
Agora só cheirava a mar. Um perfume apaixonado de algas escorria das árvores. Lua e estrelas não se viam. Nem os plátanos se viam. Só se viam muros brancos no nevoeiro branco. Tudo estava imóvel e suspenso.
Só a voz do mar se ouvia, espantosamente real, recriando-se incessantemente.
E parecia que os grandes, verdes e violentos espaços marinhos, como sendo o nosso próprio destino, nos chamavam."

Rückenfiguren

O mar come-nos o olhar. A sua gula é tamanha de medonha e hipnotiza ao ponto de nos embrulhar na rebentação das suas vagas. Cadências inconstantes de vidas arremessadas à sua voracidade. O mar come-nos de volta à nossa origem.



O Mar


«Assim como quatro quintas partes do corpo humano são agua, assim quatro quintas partes da grande corpulencia do globo são mar. Parecendo separar os homens, o bello destino eterno do mar é reunil-os.»

Ramalho Ortigão, in As Praias de Portugal (1876)

Alvas memórias

Casa branca em frente ao mar enorme,
Com o teu jardim de areia e flores marinhas
E o teu silêncio intacto em que dorme
O milagre das coisas que eram minhas.

... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

A ti eu voltarei após o incerto
Calor de tantos gestos recebidos
Passados os tumultos e o deserto
Beijados os fantasmas, percorridos
Os murmúrios da terra indefinida.

Em ti renascerei num mundo meu
E a redenção virá nas tuas linhas
Onde nenhuma coisa se perdeu
Do milagre das coisas que eram minhas.


Sophia de Mello Breyner Andresen, in Poesia I (1944)

O Menino do Mar

Ontem, à procura de uma outra coisa, encontra-me este poema escrito por mim em 2005. Há 14 anos atrás, então. Encontra-me, naqueles encontros com pessoas de quem perdemos o hábito de encontrar numa rua, ou num outro espaço público.

Quase não me conhecia já assim. De versos tão ingénuos e tão inacabados. Partilho-o, com as certezas da sua verdade imóvel no tempo. E, sempre, sem reservas.


O Menino do Mar

Ele traz-me canções
Encontradas nas ondulações
de Julhos distantes

Elas falam de marujos
Embrulhados no marulho
de uma concha quebrada

O Menino do Mar
Ensinou-me a cantar
e eu segui-o

Os meus versos
Envia-mos dispersos
como brisas à deriva

E eu continuo atrás dele

O Mar misturado ao Sol

L'Éternité


Elle est retrouvée.
Quoi? - L'Éternité.
C'est la mer allée
Avec le soleil.

Ame sentinelle.
Murmurons l'aveu
De la nuit si nulle
Et du jour en feu.

Des humains suffrages,
Des communs élans
Là tu te dégages
Et voles selon.

Puisque de vous seules,
Braises de satin,
Le Devoir s'exhale
Sans qu'on dise: enfin.

Là pas d'esperance,
Nul orietur.
Science avec patience,
Le supplice est sûr.

Elle est retrouvée.
Quoi? - L'Éternité.
C'est la mer allée
Avec le soleil.

Arthur Rimbaud

Amarar



"Dão-me no peito nu os primeiros raios do sol, que eu esperava erguido à proa do bote, e atiro-me à água onde mergulho de olhos abertos, em voluptuoso torvelinho de prata lactescente. Tenho a ilusão de uma possível metamorfose, com arranques de golfinho, pelo lençol da água esverdinhada onde todo o meu corpo se embebe de fresquidão..."

Manuel Teixeira Gomes, in Agosto Azul (1904)

Vem


Já há muito tempo que não dedicava um poema ao Mar, norte da minha bússola interior. Acabo de descobrir este singelo e sugestivo poema de Emily Dickinson.  

Chama-se, apropriadamente, The Sea said "Come" to the Brook.




The Sea said "Come" to the Brook --
The Brook said "Let me grow" --
The Sea said "Then you will be a Sea --
I want a Brook -- Come now"!

The Sea said "Go" to the Sea --
The Sea said "I am he
You cherished" -- "Learned Waters --
Wisdom is stale -- to Me"

Oceano Nox

Junto do mar, que erguia gravemente
A trágica voz rouca, enquanto o vento
Passava como o vôo do pensamento
Que busca e hesita, inquieto e intermitente,

Junto do mar sentei-me tristemente,
Olhando o céu pesado e nevoento,
E interroguei, cismando, esse lamento
Que saía das coisas, vagamente...

Que inquieto desejo vos tortura,
Seres elementares, força obscura?
Em volta de que idéia gravitais?

Mas na imensa extensão, onde se esconde
O Inconsciente imortal, só me responde
Um bramido, um queixume, e nada mais...

Antero de Quental, in "Sonetos"

As Flores do Mar

O Homem e o Mar

Homem livre, o oceano é um espelho fulgente
Que tu sempre hás-de amar. No seu dorso agitado,
Como em puro cristal, contemplas, retratado,
Teu íntimo sentir, teu coração ardente.

Gostas de te banhar na tua própria imagem.
Dás-lhe beijo até, e, às vezes, teus gemidos
Nem sentes, ao escutar os gritos doloridos,
As queixas que ele diz em mística linguagem.

Vós sois, ambos os dois, discretos tenebrosos;
Homem, ninguém sondou teus negros paroxismos,
Ó mar, ninguém conhece os teus fundos abismos;
Os segredos guardais, avaros, receosos!

E há séculos mil, séc'ulos inumeráveis,
Que os dois vos combateis n'uma luta selvagem,
De tal modo gostais n'uma luta selvagem,
Eternos lutador's ó irmãos implacáveis!

Charles Baudelaire, in "As Flores do Mal"

Tradução de Delfim Guimarães

Lamúria ao Mar


A Sea Dirge

There are certain things--as, a spider, a ghost,
The income-tax, gout, an umbrella for three--
That I hate, but the thing that I hate the most
Is a thing they call the Sea.

Pour some salt water over the floor--
Ugly I'm sure you'll allow it to be:
Suppose it extended a mile or more,
That's very like the Sea.

Beat a dog till it howls outright--
Cruel, but all very well for a spree:
Suppose that he did so day and night,
That would be like the Sea.

I had a vision of nursery-maids;
Tens of thousands passed by me--
All leading children with wooden spades,
And this was by the Sea.

Who invented those spades of wood?
Who was it cut them out of the tree?
None, I think, but an idiot could--
Or one that loved the Sea.

It is pleasant and dreamy, no doubt, to float
With "thoughts as boundless, and souls as free":
But, suppose you are very unwell in the boat,
How do you like the Sea?

There is an insect that people avoid
(Whence is derived the verb "to flee").
Where have you been by it most annoyed?
In lodgings by the Sea.

If you like your coffee with sand for dregs,
A decided hint of salt in your tea,
And a fishy taste in the very eggs--
By all means choose the Sea.

And if, with these dainties to drink and eat,
You prefer not a vestige of grass or tree,
And a chronic state of wet in your feet,
Then--I recommend the Sea.

For I have friends who dwell by the coast--
Pleasant friends they are to me!
It is when I am with them I wonder most
That anyone likes the Sea.

They take me a walk: though tired and stiff,
To climb the heights I madly agree;
And, after a tumble or so from the cliff,
They kindly suggest the Sea.

I try the rocks, and I think it cool
That they laugh with such an excess of glee,
As I heavily slip into every pool
That skirts the cold cold Sea.

Lewis Carroll

A voz do Mar

Passei o Dia Ouvindo o que o Mar Dizia

Eu hontem passei o dia
Ouvindo o que o mar dizia.

Chorámos, rimos, cantámos.

Fallou-me do seu destino,
Do seu fado...

Depois, para se alegrar,
Ergueu-se, e bailando, e rindo,
Poz-se a cantar
Um canto molhádo e lindo.

O seu halito perfuma,
E o seu perfume faz mal!

Deserto de aguas sem fim.

Ó sepultura da minha raça
Quando me guardas a mim?...

Elle afastou-se calado;
Eu afastei-me mais triste,
Mais doente, mais cansado...

Ao longe o Sol na agonia
De rôxo as aguas tingia.

«Voz do mar, mysteriosa;
Voz do amôr e da verdade!
- Ó voz moribunda e dôce
Da minha grande Saudade!
Voz amarga de quem fica,
Trémula voz de quem parte...»
. . . . . . . . . . . . . . . .

E os poetas a cantar
São echos da voz do mar!


António Botto, in 'Canções'

Tsunami


Mar, necessito-te. Purga-me com a tua espuma milenar e deixa-me sem ter no que pensar.

Levanta as tuas ondas e, vaga a vaga, afoga as desditas uma a uma. Por fim, embala-me no teu colo e deixa-me dormir e dormir.

A menina do Mar

Viver sem o mar à minha beira é impensável. Habituei-me a ele. Talvez por ter crescido sempre a seu lado. Sophia perceber-me-ia. Dedicou-lhe muitos dos seus poemas. Deixo-vos aqui um dos meus preferidos. O primeiro de muitos sobre o Mar.

Pudera eu ter assim a voz tão cristalina e depurada. Tenho-te a ti, Mar. E basta-me por ora.


Fundo do mar


No fundo do mar há brancos pavores,
Onde as plantas são animais
E os animais são flores.

Mundo silencioso que não atinge
A agitação das ondas.
Abrem-se rindo conchas redondas,
Baloiça o cavalo-marinho.
Um polvo avança
No desalinho
Dos seus mil braços,
Uma flor dança,
Sem ruído vibram os espaços.

Sobre a areia o tempo poisa
Leve como um lenço.

Mas por mais bela que seja cada coisa
Tem um monstro em si suspenso.



Sophia de Mello Breyner Andresen
Obra Poética I


gaveta de arrumos