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Lakmé

Viens, Mallika, les lianes en fleurs, também conhecido como o Dueto das Flores, é provavelmente a minha Aria favorita.

Sou capaz de a ouvir ad infinitum, tal é a sua capacidade de mexer com as minhas entranhas. Desperta em mim imagens e emoções que, até a ouvir, não as sabia minhas. Faz parte da ópera em três actos de nome Lakmé, uma composição da autoria de Léo Delibes e a sua acção passa-se na Índia, numa altura em que tudo o que vinha do Oriente era ainda prenhe em magia, sedução e mistério.

Este dueto com flores à mistura é cantado à beira-rio por duas mulheres, Lakmé e Mallika, a sua serva. Jamais o acto de apanhar flores foi captado de maneira tão bela.

Ragas e Talas

Ontem foi-me dado o privilégio de assistir a um belíssimo concerto de música clássica indiana por um dos seus maiores exponentes na Aula Magna da Universidade Portucalense.

Dr. L. Subramaniam e o seu ensemble foram os convidados e responsáveis por elevarem os espíritos de todos os que assistiram a esta grande soirée. Um dos maiores violinistas de sempre, possui o raro dom de extrair desse instrumento os mais inusitados sons e vibrações.

Acompanhado por quatro elementos, dois deles percussionistas exímios, proporcionaram a quem passou por lá uma noite com cadência, charme e magia. Subramaniam fala com uma voz grave mas serena, própria de um espírito em paz consigo mesmo e seguro da sua missão. Obrigado, então. Ficamos todos certamente mais enriquecidos com a exposição à sua grande arte.

Absolvição


É uma grande benção ter artistas que nunca nos decepcionam. Principalmente aqueles de quem mais gostamos. Tori Amos é um desses artistas. Ao fim de 10 álbums, ainda consegue surpreender-me e cativar profundamente.

Abnormally Attracted to Sin entrou pela porta de minha casa na passada 4ª feira e, aos poucos e poucos, está a entranhar-se-me pelo sangue. É sempre assim que acontece. Primeiro estranha-se, depois entranha-se, como dizia uma certa Pessoa. Até fazer parte do meu ADN, no caso da música desta grande senhora. Obrigado, Tori.

Prélude à l'après-midi d'un Faune

Segundo post dedicado aos faunos e sátiros.

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Seguramente, Prélude à l'après-midi d'un Faune é, com Clair de Lune, a peça de música mais conhecida, estudada, venerada e escutada de Claude Debussy. Poema sinfónico baseado por sua vez num outro poema, este escrito, de Stéphane Mallarmé, fez succés de scandale quando foi apresentado pela primeira vez ao vivo em Paris na Société Nationale de Musique , no dia 22 de Dezembro de 1894.

As suas características impressionistas e melodia apaziguadora contribuem em larga escala para a sua intemporalidade. Há à sua volta toda uma atmosfera de devaneio estival e, acrescentaria eu, de uma sensação de estado pós-coital que induz a esse mesmo dourado devaneio.

Vaslav Nijinsky imortalizou a obra e a si mesmo quando cria e dança em 1912 o famoso bailado com o mesmo nome. Seguindo o texto à letra, o famoso bailarino russo encarna o fauno do poema que, após assediar as ninfas sem sucesso, sucumbe ao cansaço e começa a sonhar que as suas tentativas sexuais, inicialmente falhadas, são então goradas e coroadas de prazer.

Na época, o bailado fez correr muita tinta na imprensa de todo o mundo devido à sua forte sensualidade. Ainda hoje continua a ser coreografado e dançado pelas mais famosas escolas de Ballet. Rudolf Nureyev, um outro grande bailarino russo, foi um dos que prestou homenagem a este bailado da maneira mais sublime que soube: com toda a sua arte.

Homenagens aqui também a Léon Bakst que criou o figurino do bailado original e a Georges Barbier que criou a evocativa imagem à vossa esquerda. E um piscar de olho aos faunos que, apesar de serem criaturas lascivas, brincalhonas e hedonistas, souberam inspirar de forma sublime e subliminar os grandes artistas do século XX.

Pecado


Sempre em perfeita simbiose. É assim que andamos os dois. Precisamente quando me ando a re-educar sobre noções de poder e do pecado, aí vem ela e presenteia-me com um álbum inteirinho sobre isso. Sempre em perfeita simbiose. Abnormally Attracted To Sin, espero-te ansiosamente.

Way to Blue

Veio ao meu encontro numa capa de revista. Mesmo assim, de mão estendida. Intrigado, aceitei o convite e comprei-a. É impensável agora para mim não ouvi-lo de quando em vez.

As suas canções sobre homens do rio, luas cor-de-rosa, árvores de fruto, pobres rapazes, dias que finam, coisas por trás do sol e céus do norte assombram de cada vez que se as escutam.

A sua morte prematura lembra-me o poema de A. E. Housman, To An Athlete Dying Young:


The time you won your town the race
We chaired you through the market-place;
Man and boy stood cheering by,
And home we brought you shoulder-high.

To-day, the road all runners come,
Shoulder-high we bring you home,
And set you at your threshold down,
Townsman of a stiller town.

Smart lad, to slip betimes away
From fields where glory does not stay,
And early though the laurel grows
It withers quicker than the rose.

Eyes the shady night has shut
Cannot see the record cut,
And silence sounds no worse than cheers
After earth has stopped the ears:

Now you will not swell the rout
Of lads that wore their honours out,
Runners whom renown outran
And the name died before the man.

So set, before its echoes fade,
The fleet foot on the sill of shade,
And hold to the low lintel up
The still-defended challenge-cup.

And round that early-laurelled head
Will flock to gaze the strengthless dead,
And find unwithered on its curls
The garland briefer than a girl's.

Olá

Tornar o meu caderno de apontamentos público. Para quem quiser se sentir mais perto de mim. Foi este o meu sentimento inicial. Fazer uma coisa mais íntima. Aqui ao pé de mim. Espero que vos toque de alguma maneira. Começar é de mansinho, por isso não vos quero cansar com grandes alaridos nem com grandes mensagens. Deixo-vos com uma sugestão de audição. Suave e melancólica, como convida hoje esta 3ª feira. Fiquem bem.




gaveta de arrumos