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Atlantismo

«Todo o Império que não é baseado no Império Espiritual é uma Morte de pé, um Cadáver mandando.

Só pode realizar utilmente o Império Espiritual a nação que for pequena, e em quem, portanto, nenhuma tentativa de absorção territorial pode nascer, com o crescimento do ideal nacional, vindo por fim a desvirtuar e desviar do seu destino espiritual o original imperialismo psíquico. Foi o que aconteceu com a Alemanha. O povo era grande de mais para poder realizar o seu destino supremo de imperialista de Espírito. O contrário nos aconteceu, a nós portugueses, quando as descobertas nos levaram a tentar realizar um imperialismo de Matéria, que não tínhamos gente para impor.

Criando uma civilização espiritual própria, subjugaremos todos os povos; porque contra as artes e as forças do espírito não há resistência possível, sobretudo quando elas sejam bem organizadas, fortificadas por almas de generais do Espírito.

Todo o verdadeiro Império não visa outro fim senão dominar, pelo mero prazer de dominar; parecendo absurdo, tal é, porém, o anseio fundamental de toda a verdadeira vida, de toda a aspiração vital.

Criemos um Imperialismo andrógino, reunidor das qualidades masculinas e femininas: imperialismo que seja cheio de todas as subtilezas do domínio feminino e de todas as forças e estruturações do domínio masculino. Realizemos Apolo espiritualmente.

Não uma fusão do cristianismo e do paganismo, como querem Teixeira de Pascoaes e Guerra Junqueiro; mas um alheamento do cristianismo, uma simples e directa transcendentalização do paganismo, uma reconstrução transcendental do espírito pagão.»


Fernando Pessoa, in Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional

2029


Ano: 2029.

9 anos passados depois da grande pandemia, fazia-se o balanço daquela que tinha sido a década de ouro deste novo século.

Com os níveis de poluição a registarem valores baixos históricos desde a Revolução Industrial do século XIX, após todo o tecido empresarial mundial ter sido obrigado a tomar medidas ambientais rígidas e sustentáveis, o ar e a qualidade de vida melhoraram substancialmente.

As grandes cidades continuaram a ser os grandes centros sociais e económicos do planeta, mas a sua população foi reajustada e controlada. Agora, existem máximos populacionais consoante a sua dimensão geográfica e essa estratégia também se refletiu no turismo, com bons resultados a inverterem o fenómeno de overcrowding que estava a ser um dos seus maiores problemas e um dos maiores causadores da perda de qualidade de vida dos grandes destinos turísticos.

90 por cento dos veículos são agora elétricos e as grandes petrolíferas foram praticamente todas à falência, devido aos grandes impostos que entretanto lhes impuseram e à falta de procura que ao longo da década se foi rapidamente se registando.

Os transportes públicos foram também eles melhorados e a sua circulação aumentada. A semelhança do exemplo do Luxemburgo, todos eles se tornaram gratuitos, após se ter estudado um modelo global de auto-financiamento interno por parte de cada país que se revelou eficaz e auto-suficiente.

As cidades são agora obrigadas a criarem espaços verdes, com dimensões proporcionais às suas áreas geográficas, porque se confirmou que estes são essenciais ao bem estar social e psicológico dos seus habitantes.

A circulação automóvel dentro das cidades também ela foi reduzida drasticamente devido ao aumento da circulação dos transportes públicos, e mais ruas publicas e espaços de lazer foram criados, o que fez aumentar substancialmente a convivência social e fez também progredir o pequeno comércio.

As práticas desportivas e de lazer em espaços naturais sofreram um incremento exponencial e, como resultado, os espaços e territórios mais rurais viram aumentar as suas curvas demográficas. Através de planos de incentivos governamentais eficazes, as famílias começaram cada vez mais a fixarem-se no interior. O sucesso do método teletrabalho foi um dos fatores fundamentais nesta decisão e muitas empresas viram aí uma oportunidade de expansão territorial a baixo custo.

Os laboratórios de nível 4 são agora uma coisa do passado, após se ter chegado à conclusão de que eram demasiado perigosos para a saúde publica global. Foram todos transformados em institutos de investigação de vacinas, no seguimento de uma decisão histórica por parte da nova administração da OMS, após a anterior se ter demitido em bloco na sequência dos escândalos que vieram a lume no rescaldo das investigações pós Covid-19.

A natalidade a nível mundial também ela sofreu um aumento significativo, reforçando a velha máxima associada à passagem de grandes crises. Mas são os jovens que a atravessaram que estão agora a dar cartas, passados estes nove anos. Cientes de que uma nova crise global como a de 2020 seria catastrófico para o planeta, tornaram-se os seus paladinos, quer a nível ambiental, quer a nível politico, com muitos desta nova geração pós pandemia a ocuparem cargos autárquicos (que entretanto também foram reconhecidos como tão importantes como qualquer assento parlamentar, devido à sua posição na linha da frente das suas populações) e a defender medidas cada vez mais sustentáveis e socialmente responsáveis.

Vivem-se dias mais seguros e mais felizes. A qualidade de vida dos centros urbanos tornou-se uma prioridade. Porque é lá que as pessoas vivem. E as pessoas têm de ser felizes. Porque isso é um direito fundamental da sua existência. Tudo o resto vem por acréscimo.

Mátria

O Mar é a minha mátria. Sentir as ondas em fina renda espraiarem-se a meus pés. Todo eu nu, em sentimentos. A temperatura atlântica acorda-me de encontro à vastidão, toda minha. Vagas em cadência, colcheias de marulhos para os atentos. Sereias e melusinas em surdina. Tritões e varões alertas no desengano da nona vaga, mística. Entro. Mar adentro. E a metamorfose acontece. Um ser anfíbio latente toma conta de mim. E, logo, pertenço. E existo. Acolhido por esta força líquida anímica que me envolve de modo completo e certo como na véspera do meu nascimento. E me cobre com uma película placentosa, neste ventre caldoso de algas e peixes e vida microscópica. Nesta pertença, nesta existência, tudo se resume ao cósmico, ao primordial, ao essencial. E, logo, renasço. E empurro-me de volta à praia de todos os recomeços. Todo eu nu, em sentimentos. Sentir as ondas em fina renda espraiarem-se a meus pés. O Mar é a minha mátria.







Ouroboros

«The meaning of the river flowing is not that all things are changing so that we cannot encounter them twice but that some things stay the same only by changing.»

Heráclito, séc. VI a.C.


«If we want things to stay as they are, things will have to change.»

Giuseppe Tomasi di Lampedusa, in Il Gattopardo (1958)

A raiva


«Jimmy: They all want to escape from the pain of being alive. And, most of all, love. It's no good trying to fool yourself about love. You can't fall into it like a soft job, without dirtying up your hands. It takes muscles and guts. And if you can't bear the thought of messing up your nice, clean soul - you'd better give up the whole idea of life, and because you'll never make it as a human being. It's either this world of the next.»

[...]

«Jimmy: One day, when I'm no longer spending my days running a sweet-stall, I may write a book about us all. It's all here. (slapping his forehead) Written in flames a mile high. And it won't be recollected in tranquility either, picking daffodils with Auntie Wordsworth. It'll be recollected in fire, and blood. My blood.»

John Osborne, in Look Back in Anger (1956)

A mágoa

Barco de quilha rota, a desnorte de um encalhamento num escolho sem escolha, sem vontade própria.

À espera da fenomenal vaga que a lave, que a leve, para longe do seu peso fantasmal. E a vaga vem, e a vaga vai. Vem e vai. Vem. Vai.

E a preia-mar invernosa mostra-lhe o caminho rumo ao campo das estrelas. E a praia, à beira-mar, vai-se limpando e alindando rumo a um verão invencível.

O Mago

Tarkovsky transformava paisagens e objetos, devolvendo-nos as suas ocultas almas, como atestam estas polaroids de sua autoria. É, portanto, mais uma devolução aos seus estados latentes, do que propriamente uma transformação. O essencial estava já lá. Bastou desvendá-lo. Assim seja.




Página em branco

O segredo de sentirmos aquela alegria que só uma criança possui, como propriedade que é só sua, vem de todas as vezes que lhes conseguimos devolver um sorriso.

É nesses fortuitos instantes que vemos tudo o que somos e tudo o que fomos com um outro olhar. E que começamos a acreditar. Que não custa nada ser assim. Basta olharmos para fora. Para melhor vermos o que nos vai dentro.

Despojos do dia


Infância deveria sempre rimar com abundância. De afetos. De família. De dias cálidos e ensolarados. De brincadeiras sãs em ruas sem carros. De novos amigos. De simples milagres diários. De olhares limpos. Como o deste retrato, o jovem José Alberto Reis Pereira, pintado pelo pai, Julio, irmão de José Régio.

Nesta época do ano, tão avassaladora no seu vesgo consumismo, Sophia vem de novo ao meu encontro, recuperando uma outra publicação minha sobre como me libertar de materialismos supérfluos e sem sentidos.

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«Dai-me a casa vazia e simples onde a luz é preciosa. Dai-me a beleza intensa e nua do que é frugal. Quero comer devagar e gravemente como aquele que sabe o contorno carnudo e o peso grave das coisas.
Não quero possuir a terra mas ser um com ela. Não quero possuir nem dominar porque quero ser: esta é a necessidade.
Com veemência e fúria defendo a fidelidade ao estar terrestre. O medo do ter perturba e paralisa e desvia em seus circuitos o estar, o viver, o ser. Dai-me a claridade daquilo que é exactamente o necessário. Dai-me a limpeza de que não haja lucro. Que a vida seja limpa de todo o luxo e de todo o lixo. Chegou o tempo da nova aliança com a vida.»

Artérias de vida(s)

Ser bom ouvinte sempre me ajudou a compreender melhor o mundo que nos rodeia, precisamente porque é através das histórias dos outros que nos apercebemos da fragmentação do universo que, paradoxalmente, é o reflexo da sua e da nossa própria universalidade. De sentimentos, de experiências, de anseios, de tudo que compõe o tecido humano.

Ainda no seguimento da publicação anterior, encontro hoje esta citação de Henry David Thoreau, de quem ando a ler o seu seminal "Walking" --

«Never look back unless you are planning to go that way»

Uma boa caminhada é algo que gosto muito de fazer sempre que o tempo e a disponibilidade me permitem. Renova-me interiormente. Completamente. Thoreau introduz-me ao conceito do "saunterer", peregrinos da Santa Terra. Todos nós percorremos um caminho. Cabe-nos alargar os horizontes desse caminho, para que a experiência nos enriqueça. Se possível, reciprocamente. A capacidade de dar e de nos darmos é, muitas das vezes, um vício inerente em estado de latência. Que bom que é quando nos damos conta disto mesmo. E ainda vamos a tempo.

Amor fati

«My formula for greatness in a human being is amor fati: that one wants nothing to be different, not forward, not backward, not in all eternity. Not merely bear what is necessary, still less conceal it - all idealism is mendacity in the face of what is necessary - but love it.»


Friedrich Nietzsche, in Ecce Homo (1908)

Flor azul



Oh! sauge, Geliebter,
Gewaltig mich an,
Daß ich entschlummern
Und lieben kann.
Ich fühle des Todes
Verjügende Flut,
Zu Balsam und Äther
Verwandelt mein Blut -
Ich lebe bei Tage
Voll Glauben und Mut
Und sterbe die Nächte
In heiliger Glut.

Novalis, in Hymen and die Nacht (1800)

Classicismos



Torso arcaico de Apolo

Não conhecemos sua cabeça inaudita
Onde as pupilas amadureciam. Mas
Seu torso brilha ainda como um candelabro
No qual o seu olhar, sobre si mesmo voltado

Detém-se e brilha. Do contrário não poderia
Seu mamilo cegar-te e nem à leve curva
Dos rins poderia chegar um sorriso
Até aquele centro, donde o sexo pendia.

De outro modo erguer-se-ia esta pedra breve e mutilada
Sob a queda translúcida dos ombros
E não tremeria assim, como pele selvagem.

E nem explodiria para além de todas as suas fronteiras
Tal como uma estrela. Pois nela não há lugar
Que não te mire. Precisas mudar de vida.

Rainer Maria Rilke, in Neue Gedichte (1908)

Tomo II

Tenho um plano. Desde muito cedo, mimeticamente acumulamos coisas, quais pegas rapinas, pelo prazer de "ter", de "possuir", de reclamar algo como "nosso". Assinamos os nossos nomes, fazemos marcas, melhor ou pior encriptadas, e guardamos tudo em gavetas, armários com chave, cofres com combinação. Que ilusão.

Tenho um plano. Quando olho para tudo aquilo que acumulei, sinto um medo cada vez mais real. De que me quero livrar sistematicamente. Descobri, no entanto, uma maneira simples de o fazer. Já me apercebi de que há coisas - materiais, entenda-se - de que não tenho dificuldade nenhuma de me desfazer. Seja através da reciclagem ou da doação, isso já está a acontecer. E, inerente a este processo, há uma sensação de libertação ao fazê-lo que me lava por dentro e que me renova. Vou levá-lo ao seu propósito lógico. Que bonança.

Tenho um plano. As "metades de vidas" a que me referi em outras publicações, assim como as tais "experiências liminares", penso que passam também por aqui. Por isto e muito mais. Agora sei-o. Este despojamento também se assume interior, seguramente. Sinto que, mais do que um novo capítulo da minha transiente história pessoal, estou a começar um segundo tomo, complementar ao inicial. Que irá ditar o balanço, em forma de dicotomia de valores. Que surpresa.

Tenho um plano. Todos devíamos ter um plano. Em forma de livro d'água. Com páginas lisas e com escritas transparentes. De marés cheias de Vida. De Presentes do Indicativo, livres de Pretéritos Imperfeitos. De leveza de gestos. De sadios afetos. De atitudes coerentes. Contra-correntes à reinante indigência de valores. Que bom ainda ir a tempo.

Macrocosmos microscópicos

Ontem trovejou. Intensamente. Seguido de uma chuva de verão com pingas grossas e abundantes. O cheiro a terra que ajudou a levantar traz sempre memórias de vidas que não vivemos, mas trazemos dentro de nós. É aquela sensação de algo «familiar», que não se consegue explicar. Apenas se sente.

A trovoada faz-me bem. Acalma-me. Refresca-me. Não costumava ser assim. Mas um verão aconteci-me assim. Como se a energia elétrica servisse de condutor entre a atmosfera e o meu sistema nervoso. E ela continuava por cima de mim, por cima de todos nós, a relampejar como se de fogo de artifício se tratasse, a lembrar-nos da existência de um cosmos antiquíssimo e misterioso.

O olhar tem de viajar


Porque procura o olhar o belo? Porquê esta procura incessante? Porquê esta necessidade de saciar os sentidos? Inconscientemente, sabêmo-lo. Conscientemente, fazêmo-lo através da criação artística. Para voltar às questões. Como forma de resposta.


The Pursuit of Beauty

Man's soul is drawn by beauty, even as the moth
       By flame, the cloud by mountains, or as the sea,
       Roaming around earth's shore incessantly,
       Ebbs with the moon and surges with her growth;
And as the moth singes her wings in fire,
       As clouds upon the hillsides melt in rain,
       As tides with change unceasing wax and wane,
       Nor in the moon's white kisses quell desire;
So the soul, drawn by beauty, nothing loth,
       Burns her bright wings with rapture that is pain,
       Faints and dissolves or e're her goal she gain,
Flies and pursues that unclasped deity,
       Fretful, forestalled, blown into foam and froth,
       Following and foiled, even as I follow Thee!

John Addington Symonds, in Animi Figura (1882)

Liminaridades


Apercebo-me que, durante toda a minha vida, tenho estado ligado a tempos e espaços liminóides - físicos, psicológicos e espirituais.

Hoje, num dos dias mais liminares do ano - o Solstício de Verão - ocorre-me que preciso de alguém que me guie em algum ritual de iniciação que me faça passar por uma experiência liminar, que sinto que se avizinha.

O convite está feito.

Finitos e Infinitos

A finalidade da existência terá uma finalidade. Digo-o afirmando-o, não enquanto questão. Porque ao ser final, ao ser finita, presenteia-nos com um propósito inato e irrecusável.

Quer sejamos sofridos Jós, atormentados Tântalos ou telúricos faunos, não importa. O que importa é que sejamos todos merecedores desse propósito. Sem reservas.

Recolher



Agarrai nas vesgas moles
e lançai-as aos biltres de brandas fronhas!
De mortalhas trajadas,
não passais já de carne fétida
a quem apraz maldizer
em vil acto de excomunhão!

Desviai-me a mão
de tal enfermo propósito,
que de mim próprio temo!
Sabei que as minhas dolores
são profundas e antigas,
porque vossas.
Soai agora a hora do recolher!

Ó nauseada vontade
de um povo sem grito,
de um rosto sem brado!
Dai de comer a essa fome
que vos come,
dai novo mister a essa Alma
que por ora jaz sem serventia!

Cosmologias

Ocorre-me pensar que o ser humano, apesar da sua imensa pequenez perante a imensidão de um cosmos que o desconhece, carrega dentro de si universos sem fim de sentimentos que o avassalam como se de a coisa mais importante do mundo tratasse.


Cada um de nós, macrocosmos microscópicos. Cada um de nós.


gaveta de arrumos