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As noites e o jardim


Em todos os jardins

Em todos os jardins hei-de florir
Em todos beberei a lua cheia,
Quando enfim no meu fim eu possuir
Todas as praias onde o mar ondeia.

Um dia serei eu o mar e a areia,
A tudo quanto existe me hei-de unir
E o meu sangue arrasta em cada veia
Esse abraço que um dia se há-de abrir.

Então receberei no meu desejo
Todo o fogo que habita na floresta
Conhecido por mim como num beijo.

Então serei o ritmo das paisagens,
A secreta abundância dessa festa
Que eu via prometida nas imagens.

Sophia de Mello Breyner Andresen, in Poesia (1944)

Verdes tempos


Abrir gavetas que já não são abertas há muito tempo, tem disto -- encontram-se escritos há muito caídos no esquecimento, empurrados pelo ritmo de dias em frenética catadupa. Data de agosto de 2007 e plasma nas suas linhas alguém muito próximo de encontrar a sua voz. Aqui fica. Mais uma vez, sem reservas.

O musgo e os mortos

Imóveis -
de semblantes distantes
e gestos infindos
carregados de mitos e ritos
esculpem a paisagem
em eternos instantes

Frias -
de olhares de alabastro
e melenas de musgo
desenganadas da sorte e da morte
esculpem o tempo
em pacíficos pastos

Sanctum Sanctorum


Vi Jesus Cristo descer à Terra

[...]

A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E a outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é o de saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.

A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direcção do meu olhar é o seu dedo apontando.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.
Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e esquerda.

[...]


Alberto Caeiro, in O Guardador de Rebanhos - Poema VIII (1931)

Espelhos mortais


Existe algo na alma russa de muito próximo à lusa. Será por isso que volto a «Zerkalo», o mais nostálgico de todos os filmes de Andrei Tarkovsky, de forma mais amiúde do que o resto da sua mística filmografia.

Talvez seja por muitas outras coisas também. Ontem, foi para (re)encontrar-me com a límpida poesia de seu pai, Arseny.

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First Dates

Each moment of our dates, not many,
We celebrated as an Epiphany.
Alone in the whole world.
More daring than a bird
Down the stairs, like a dizzy apparition,
You came to take me on your road,
Through rain-soaked lilacs,
To your own possession,
To the looking glass world.

As night descended
I was blessed with grace
The altar gate opened up,
And in the darkness shining
And slowly reclining
Was your body naked.
On waking up I said:
God bless you!
Although I knew how daring and undue
My blessing was: You were fast asleep,
Your closed eyelids with the universal blue
The lilac on the table so strained to sweep.
Touched by the blue, your lids
Were quite serene, your hand was warm.

And rivers pulsed in crystal slits,
Mountains smoked and oceans swarmed.
You held a sphere in your palm,
Of crystal: on your throne you were sleeping calm.
And, oh my God! - 
Belonging only to me.
You woke and at once transformed
The language humans speak and think.
Speech rushed up sonorously formed,
With the word "you" so much reformed
As to evolve a new sense meaning king.

And suddenly all changed, like in a trance,
Even trivial things, so often used and tried,
When standing 'tween us, guarding us,
Was water, solid, stratified.
It carried us I don't know where.
Retreating before us, like some mirage,
Were cities, miraculously fair.
Under our feet the mint grass spread,
The birds were following our tread,
The fishes came to a river bend,
And to our eyes the sky was open.

Behind us our fate was groping,
Like an insane man with a razor in his hand.

Sobre capas

Porque o interior de um livro é sempre um tesouro por descobrir. E porque o seu exterior era, muitas das vezes, um tesouro também, como bem demonstram estas soberbas capas.


 

 



As dores de Pã

Tenho tido um estio de dias muito ativos, quase atléticos. Já não me conhecia deste jeito, quase enjeitado de uma idade que se quer ainda plena de vigor físico.

Sinto-me habitação vandalizada, a ranger por reparos urgentes. Portas e janelas com tintas estaladas e secas de sóis impiedosos. E dores, muitas dores.

Nem a propósito, encontro este poema da sábia Sophia, ao folhear um seu livro numa das minhas incursões regulares pelas livrarias dos meus roteiros de tempos mais livres.



Os troncos das árvores doem-me como se fossem os meus ombros
Doem-me as ondas do mar como gargantas de cristal
Dói-me o luar como um pano branco que se rasga.


Sophia de Mello Breyner Andresen, in Coral (1950)

Lux Pastorem

Artur Pastor. Fotógrafo. Não o conhecia. Que feliz coincidência o ter encontrado. Estou assoberbado com tanta elegância visual e mestria. Ficam aqui algumas imagens e a promessa professa de voltar à sua imensa obra.




O Menino do Mar

Ontem, à procura de uma outra coisa, encontra-me este poema escrito por mim em 2005. Há 14 anos atrás, então. Encontra-me, naqueles encontros com pessoas de quem perdemos o hábito de encontrar numa rua, ou num outro espaço público.

Quase não me conhecia já assim. De versos tão ingénuos e tão inacabados. Partilho-o, com as certezas da sua verdade imóvel no tempo. E, sempre, sem reservas.


O Menino do Mar

Ele traz-me canções
Encontradas nas ondulações
de Julhos distantes

Elas falam de marujos
Embrulhados no marulho
de uma concha quebrada

O Menino do Mar
Ensinou-me a cantar
e eu segui-o

Os meus versos
Envia-mos dispersos
como brisas à deriva

E eu continuo atrás dele

Flor do Mar


"AS ONDAS

- «Menino Bartolomeu,
nós somos suas amigas;
havemos de lhe contar
lindas histórias antigas.

«Lindas histórias antigas
havemos de lhe contar, 
onde as velas dos navios
são como asas a voar.

«São como asas a voar
para longe, para além,
onde estão as belas Ilhas,
onde nunca foi ninguém.

«Onde nunca foi ninguém
porque ninguém sabe ainda
por onde fica o caminho
de tanta terra linda.

«De tanta terra linda
havemos de lhe falar...
Menino Bartolomeu,
ande, agora vá brincar.»

Ora aqui está a razão
porque ele tanto cismava:
é porque ouvia a canção
que o mar cantava...

Quando forem à praia, escutem bem,
e com certeza - assim lhes juro eu - 
hão-de ouvir, hão-de ouvir cantar também
o canto que embalou Bartolomeu..."

in Bartolomeu Marinheiro, versos de Afonso Lopes Vieira, ilustrações de Raul Lino (1912)

Estios

Agora que despertei a criança interior, e olhando para esta primitiva foto, certamente tirada em tempos em que se ia a banhos quando se padecia de frieldades, apetece-me precisamente isso - praias com cheiro a sargaço e deitar-me debaixo do sol quente, qual ritual pagão, em adoração a esse astro de fogo e de luz feito.

Os Passarinhos


O prometido é devido. Aqui fica mais uma ilustração de Raul Lino retirada do livro infantil "Animaes nossos amigos" (1911), acompanhada de um poema de Afonso Lopes Vieira, o autor:

Que bonitos, que engraçados,
que piquenos, coitadinhos,
os estouvados
dos passarinho!
-
A sua vida é cantar,
voar,
brincar pelo ar,
e alegrar
com seus chilreos
tão cheios
de graça e boa alegria,
a luz do dia!
-
Que bonitos, que contentes
e que espertos, coitadinhos,
os inocentes
dos passarinhos!
-
A sua vida é voar,
cantar,
brincar pelo ar,
e alegrar
em ranchos alegres e mui divertidos,
e quando poisam nos ramos floridos
parece que as flores estão a gorgear!...
-
Que bonitos, que engraçados,
os passarinhos,
se estão casados,
dentro dos ninhos,
e vão criando, com mil cuidados,
os seus meninos.
-
E então quando os pequeninos,
já mais crescidos,
podem sair?...
Vêm com elles os seus paes,
e elles piam,
piam,
piam,
muito contentes, os atrevidos,
assim a modo que a rir
e aos seus ais...
-
E os seus paes
estão mesmo a dizer:-«Vê lá se caes!
Por aqui, por aqui, por este lado,
devagarinho,
que tu és um passarinho
muito piqueno! Cuidado!...
Sim, quando fôres grande, então voarás;
serás capaz
de subir, de subir, de subir pelo ar,
e de ir subindo,
cantando e rindo,
sempre a voar,
lá tão alto, que o Sol fique pertinho
de ti, meu pobre e lindo passarinho!...»

Renascimentos

Exuma-se a Beleza e exalte-se o seu Canto.

Reinventem-se os dias claros e azuis.

Uma a uma, desvendam-se as infâncias douradas de lezírias e estepes.

Faça-se uma igreja de salmos renovados.

Nobres bigodes


Aaron Smith é o artista plástico. Bigodes e barbas de nobres senhores, o seu ponto fraco. O resultado está à vista: delicioso.

De futuro, irei colocar mais imagens de farfalhudos cavalheiros. Desculpem lá a brincadeira. É que me fazem lembrar o meu pai.

Fantasmagórico

Navegar em mar alto à deriva tem destas coisas. Quem diria que a fotografia a cores já tem mais de 100 anos? Cento e dez, para ser exacto.

O termo "cápsula do tempo" ganhou agora um novo sentido.




Pássaro

Hoje nasceu a minha sobrinha e o milagre da vida voltou a manifestar-se. Do sangue e do sémen nasce uma criatura perfeita na sua complexidade de ser humano.

Como padrinho, dou-lhe a benção dos pássaros - a Liberdade. Que saiba sempre ser livre e que nunca se prenda ou sinta presa a nada que não interessa. Que saiba sempre planar sobre todas as dificuldades e que nunca perca a graça tão própria dessas delicadas e frágeis criaturas aladas.

E que voe. E voe. E voe. E que nos faça sonhar enquanto persegue os seus sonhos.

Madrugador


Esta semana vou levantar-me todos os dias muito cedo. Não me importo mesmo nada. Com a chegada da Primavera, as manhãs têm uma outra luz e outros cheiros. Mal posso esperar para os sentir.

Hoje fui dar um passeio a pé pela beira-mar, algo que já não fazia desde o ano passado. O frio a mim não deixa saudade. Nem às restantes pessoas com que me cruzei, já todas a reivindicarem sol, calor e poucas roupas no corpo.

Felinas aventuras

Há memórias com raízes na infância que ganham em permanecerem intocadas, que mais vale não serem remexidas para não perderem o brilho e a magia.

O Tigre da Malásia, mais conhecido por Sandokan, é uma delas. Por muito que me custe, recuso-me a revisitá-lo. Prefiro saber mais sobre o seu mito, sobre a sua lenda, sobre o seu autor do que saber que se tornou num amigo que não me apetece rever porque seguimos caminhos tão diferentes que ficamos sem referências mútuas.

Por vezes, é o que acontece a certas amizades. Espero que não a todas.

Ao abandono


O Outono retira vida às ruas e casas de comércio à beira-mar. Mas não é por isso que eu deixo de as frequentar. Para mim, há todo um mistério associado a este deixar ao abandono certos lugares que parecem repousar à espera de serem novamente vividos e movimentados que me deixa intrigado.

Enquanto isso não acontece, como que dormem esperando. Pacientemente. Agora sei-o.

Faro


A maré leva-me de farol em farol e troca-me as voltas com a sua falta de sincronismo. É a vida a baralhar-me o jogo em desábitos necessários. As amarras continuam bem presas, apesar do pesar. Ou por causa dele.

Outros tempos


Pode haver quem passe por este lugar e pense que eu passo demasiado tempo a falar sobre o tempo. Em minha defesa, eu digo que não se passa o tempo suficiente a falar sobre o tempo. Que o diga também o realizador japonês Yasujiro Ozu que praticamente fez carreira a falar sobre o tempo que passa e o tempo que faz lá fora. São testemunha disso os lindos nomes que pôs aos seus filmes: Outono Tardio, Flor do Equinócio, O Fim do Verão, Bom Dia, Uma Tarde de Outono ou ainda Crepúsculo em Tóquio.


gaveta de arrumos