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Ócios de estio


Estender-me perpendicularmente sob a oblíqua luz do sol da meia tarde e banhar-me no caldo primordial de uma preia-mar. Perfeito exercício de estio. Absolvidos ócios de um estilo que se quer sempre cada vez mais mediterrâneo, cada vez mais insular. 

Os estios pedem. Reclamam-se. Roubam-nos as forças. Ficam mais fortes com elas. Apolo e Dionísio em tensão fraternal máxima. Se o caos tem racionalidade, é a razão própria que valida a tragédia.

(Des)mascarar


«L'utopie est la vérité de demain.»


Victor Hugo, in Les Misérables (1862)

Pintura: José Conrado Roza, Mascarada Nupcial (1788)

Certezas maiores


If

If you can keep your head when all about you
   Are losing theirs and blaming it on you;
If you can trust yourself when all men doubt you,
   But make allowance for their doubting too;
If you can wait and not be tired by waiting,
   Or, being lied about, don’t deal in lies,
Or, being hated, don’t give way to hating,
   And yet don’t look too good, nor talk too wise;

If you can dream—and not make dreams your master;
   If you can think—and not make thoughts your aim;
If you can meet with triumph and disaster
   And treat those two impostors just the same;
If you can bear to hear the truth you’ve spoken
   Twisted by knaves to make a trap for fools,
Or watch the things you gave your life to broken,
   And stoop and build ’em up with wornout tools;

If you can make one heap of all your winnings
   And risk it on one turn of pitch-and-toss,
And lose, and start again at your beginnings
   And never breathe a word about your loss;
If you can force your heart and nerve and sinew
   To serve your turn long after they are gone,
And so hold on when there is nothing in you
   Except the Will which says to them: “Hold on”;

If you can talk with crowds and keep your virtue,
   Or walk with kings—nor lose the common touch;
If neither foes nor loving friends can hurt you;
   If all men count with you, but none too much;
If you can fill the unforgiving minute
With sixty seconds’ worth of distance run—
   Yours is the Earth and everything that’s in it,
And—which is more—you’ll be a Man, my son!

Rudyard Kipling in Rewards and Fairies (1910)

Ouroboros

«The meaning of the river flowing is not that all things are changing so that we cannot encounter them twice but that some things stay the same only by changing.»

Heráclito, séc. VI a.C.


«If we want things to stay as they are, things will have to change.»

Giuseppe Tomasi di Lampedusa, in Il Gattopardo (1958)

Cárceres

Consciente ou inconscientemente, dou por mim sempre atento a coincidências ou padrões repetitivos à minha volta. Sempre que um ou outro acontecem, isso faz com que me abstraia instantaneamente do que me rodeia e aceda a um estado cognitivo de maior entendimento, que só se manifesta em ocasiões como estas.

Um dos últimos casos em que isso me aconteceu, teve a ver com cinema. Especificamente, com os dois últimos filmes que vi numa sala de cinema, em datas diferentes: "A Hidden Life", de Terrence Malick; e "J'Accuse", de Roman Polanski. Só muito recentemente me apercebi que, tanto um, como o outro, abordam questões de integridade moral, cujo enredo envolve o aprisionamento da figura central à trama da história, por razões expiatórias favorecendo um poder central maior.

Nunca vergando, nunca cedendo, ambas as personagens tornar-se-iam exemplos de conduta moral, não escapando, no entanto, à chancela de mártires -- condição sine qua non nestes casos. Ambas as histórias, coincidentemente também, são verídicas. Há aqui, certamente, uma verdade maior a apreender.

A raiva


«Jimmy: They all want to escape from the pain of being alive. And, most of all, love. It's no good trying to fool yourself about love. You can't fall into it like a soft job, without dirtying up your hands. It takes muscles and guts. And if you can't bear the thought of messing up your nice, clean soul - you'd better give up the whole idea of life, and because you'll never make it as a human being. It's either this world of the next.»

[...]

«Jimmy: One day, when I'm no longer spending my days running a sweet-stall, I may write a book about us all. It's all here. (slapping his forehead) Written in flames a mile high. And it won't be recollected in tranquility either, picking daffodils with Auntie Wordsworth. It'll be recollected in fire, and blood. My blood.»

John Osborne, in Look Back in Anger (1956)

A Língua dos Pássaros

Este quadro fez parte de uma rara cópia ilustrada do poema místico de Farid al-Din 'Attar, o Mantiq al-Tair (A Língua dos Pássaros). Comissionada por um mecenas endinheirado durante o reinado do Sultão de Timurid em Herat, Husain Baiqara (r. 1470-1506), o manuscrito contém 4 pinturas do século XV, atribuídas ao celebrado mestre Bihzad.

Como resposta ao lamento do pássaro poupa, conta a história de um homem pobre que se enamora de um rei egípcio. O monarca manda chamar o homem pobre e pede-lhe para escolher entre o exílio ou a morte. O homem pobre escolhe o exílio e é imediatamente decapitado. Quando perguntam ao monarca porque cometeu este ato, ele responde "É porque ele não estava totalmente apaixonado por mim. Se ele realmente me amasse, teria escolhido a morte, em vez do exílio. Se ele tivesse escolhido a morte, eu ter-me-ia tornado no seu dervish".

Artérias de vida(s)

Ser bom ouvinte sempre me ajudou a compreender melhor o mundo que nos rodeia, precisamente porque é através das histórias dos outros que nos apercebemos da fragmentação do universo que, paradoxalmente, é o reflexo da sua e da nossa própria universalidade. De sentimentos, de experiências, de anseios, de tudo que compõe o tecido humano.

Ainda no seguimento da publicação anterior, encontro hoje esta citação de Henry David Thoreau, de quem ando a ler o seu seminal "Walking" --

«Never look back unless you are planning to go that way»

Uma boa caminhada é algo que gosto muito de fazer sempre que o tempo e a disponibilidade me permitem. Renova-me interiormente. Completamente. Thoreau introduz-me ao conceito do "saunterer", peregrinos da Santa Terra. Todos nós percorremos um caminho. Cabe-nos alargar os horizontes desse caminho, para que a experiência nos enriqueça. Se possível, reciprocamente. A capacidade de dar e de nos darmos é, muitas das vezes, um vício inerente em estado de latência. Que bom que é quando nos damos conta disto mesmo. E ainda vamos a tempo.

Leituras interiores

Les rêves sont la littérature du sommeil. Même les plus étranges composent avec des souvenirs. Le meilleur d'un rêve s'évapore le matin. Il reste le sentiment d'un volume, le fântome d'un péripétie, le souvenir d'un souvenir, l'ombre d'une ombre...

Jean Cocteau 

Amor fati

«My formula for greatness in a human being is amor fati: that one wants nothing to be different, not forward, not backward, not in all eternity. Not merely bear what is necessary, still less conceal it - all idealism is mendacity in the face of what is necessary - but love it.»


Friedrich Nietzsche, in Ecce Homo (1908)

A voz do mar


Sophia, sempre Sophia a invadir-me os meus dias. Hoje, ao ler o conto Praia incluído nos seus «Contos Exemplares», encontro estas linhas tão em sintonia com o que por aqui escrevi ontem. É o mar, sempre o mar a invadir-me.

"Cá fora, mal passámos a porta que dava para a varanda, o grande sopro do mar cobriu-nos, rodeou-nos, invadiu-nos.
O nevoeiro tinha transfigurado tudo.
Agora só cheirava a mar. Um perfume apaixonado de algas escorria das árvores. Lua e estrelas não se viam. Nem os plátanos se viam. Só se viam muros brancos no nevoeiro branco. Tudo estava imóvel e suspenso.
Só a voz do mar se ouvia, espantosamente real, recriando-se incessantemente.
E parecia que os grandes, verdes e violentos espaços marinhos, como sendo o nosso próprio destino, nos chamavam."

Flor azul



Oh! sauge, Geliebter,
Gewaltig mich an,
Daß ich entschlummern
Und lieben kann.
Ich fühle des Todes
Verjügende Flut,
Zu Balsam und Äther
Verwandelt mein Blut -
Ich lebe bei Tage
Voll Glauben und Mut
Und sterbe die Nächte
In heiliger Glut.

Novalis, in Hymen and die Nacht (1800)

Terminus

Acabo de ler uma notícia sobre dois golfinhos que deram à costa já sem vida nas suas entranhas, não passando já de postas de carne inertes, divorciadas das suas graças de movimentos, onde se lê "as causas da morte não são conhecidas, apesar destes incidentes serem comuns no final do verão".

Este passado fim de semana a temperatura subiu-me, fiz-me febril e as minhas tripas desfizeram-se em tralhas. Ponho as culpas todas no verão. Eu e os golfinhos, seguramente. Foi como se o calor todo que o meu corpo absorveu durante este estio tão incerto nos seus barómetros fervesse as minhas entranhas e elas encontrassem essa maneira de o expulsar. Desfeitas em tralhas.

No fim de todos os verões, damos todos à costa de todos os setembros de abrigo.

Dedos de escriba


Certa noite sonhei que escrevia com o dedo. Nunca mais me esqueci deste sonho. A tinta saía negra e grossa, como tirada de um pincel. Como se no lugar de vasos sanguíneos o meu dedo indicador tivesse um tubo de esferográfica, daqueles de plástico transparente, que usava a boca do meu dedo para falar pela folha branca afora.

Meio do dia

Ao transcrever este poema, apercebo-me que, mesmo que de forma inconsciente, é já a terceira vez que me debruço sobre "metades". Reais ou metafóricas.

Aguardo tranquilamente o desenrolar destas "metades", de dia, de vida, de afetos.







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Meriggio
In questa doratura di sole
io sono
una gemma pelosa
legata crudelmente con un filo di refe
perché non possa sbocciare
a bagnarsi di luce.
Accanto a me tu sei
una freschezza riposante d'erba
in cui vorrei affondare
perdutamente
per sfrangiarmi anch'io
in un ebbro ciuffo di verde -
per gettare in radici sottili
il mio più acuto spasimo
ed immedesimarmi con la terra.

Dos filhos e dos homens


«Um homem chegou aos quarenta anos e assumiu a tristeza de não ter um filho. Chamava-se Crisóstomo. Estava sozinho, os seus amores haviam falhado e sentia que tudo lhe faltava pela metade, como se tivesse apenas metade da casa e dos talheres, metade dos dias, metade das palavras, para se explicar às pessoas.»

Valter Hugo Mãe, in O filho de mil homens (2011)

Diário de viagem

Já aqui me tinha referido à obra de Manuel Teixeira Gomes, embora de forma elíptica. Retorno a ela, como quem retorna a um filão de um metal mais magnífico do que o ouro, que se pensava esgotado, olvidado, ostracizado até.

Pecado maior na aceitação e compreensão de qualquer artista é a incapacidade de o dissociar da sua vida pessoal. Amiúde, as suas vidas estão longe do ideal que tentaram alcançar através da criação artística. Tudo farei para que nunca tenha que absolver tal mácula de julgamento.

Transcrevo aqui um excerto que julgo exemplar da forma gloriosamente barroca como utilizou a sua língua natal. Latifundiário de uma linguagem riquissimamente ornada, emprestando-se frequentemente a veleidades de esteta linguístico, possuía dotes descritivos como muito poucos. Confiram, então.


«Parte do jardim tornara-se impenetrável pela densíssima vegetação que o enchia, mas via-se, de longe, desse miolo de verdura, alar a fluência magnífica das bananeiras estéreis, os leques malabares das palmas anãs, as vergastas dos bambus e, ardendo como fachos acesos, os tirsos alaranjados dos cactos floridos... Do lado oposto e ao abrigo do biombo de loureiros entretecidos de heliotrópios, cujas flores, na sombra lúcida, lhes recamavam a folhagem envernizada de gotas azuladas, o tanque de águas verdosas, turquesa oval, reflectia por entre rolos de limos trechos de céu profundo. Era ali que durante os crepúsculos se destilavam os perfumes mais activos.

O jardim vivia o momento supremo do seu esplendor, hora imperial, fulgurante, perdulária, que se encurtava para se não repetir mais, exausta em voluptuosidades arrebatadas e caprichosas; e essa hora divina foi para mim só...»

Manuel Teixeira Gomes, in Cartas sem moral nenhuma (1903)

O Menino do Mar

Ontem, à procura de uma outra coisa, encontra-me este poema escrito por mim em 2005. Há 14 anos atrás, então. Encontra-me, naqueles encontros com pessoas de quem perdemos o hábito de encontrar numa rua, ou num outro espaço público.

Quase não me conhecia já assim. De versos tão ingénuos e tão inacabados. Partilho-o, com as certezas da sua verdade imóvel no tempo. E, sempre, sem reservas.


O Menino do Mar

Ele traz-me canções
Encontradas nas ondulações
de Julhos distantes

Elas falam de marujos
Embrulhados no marulho
de uma concha quebrada

O Menino do Mar
Ensinou-me a cantar
e eu segui-o

Os meus versos
Envia-mos dispersos
como brisas à deriva

E eu continuo atrás dele

Andam Faunos pelos Bosques


Ainda os faunos - essas figuras mitológicas que têm tanto de inocentes, como de mariolas - a visitarem-me o pensamento e a desinquietarem-me as morais.

Reencontro, sem procurar, a obra de Aquilino que dá título a este post. Chegou agora a hora certa para a ler. Sim, porque tudo tem um tempo e um timing precisos. Só temos mesmo de estar atentos e corresponder a estes convites sem reservas. Fica aqui um excerto:

"Fez o servo de Deus o sinal da cruz, mas, para ser demónio, não se desvaneceu em fumo ou cheiro de enxofre o estranho vivente. Perguntou-lhe então quem era, ao que o outro, oferecendo-lhe tâmaras, respondeu: Sou Mortal, um dos habitantes do ermo e chama-nos a gentilidade, em seu error, faunos, sátiros e ainda silvanos."

O gene da poiesis

Alguém um dia deveria debruçar-se sobre a intensa atividade criativa a que a família Reis Pereira se dedicou. José Régio, à proa, seguido de seus irmãos Júlio, Antonino, Apolinário e João Maria, respetivamente.

E, respetivamente também, todos eles se dedicaram de uma ou outra forma à criação literária ou plástica. Frequentemente, às duas e com superlativos resultados. Hoje, deixo aqui um dos muitos poemas que o benjamim deste magnífico clã nos deixou.

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Um dia
peguei na vida, 
e, tão recatadamente,
fui guardá-la
na tua mão. 
Dobrei-te os dedos
para ficar bem guardada. 
Mas tu
não foste cautelosa:
- a pouco e pouco
foste abrindo a tua mão!...

João Reis Pereira, in Diário (2003)


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