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Alvas memórias

Casa branca em frente ao mar enorme,
Com o teu jardim de areia e flores marinhas
E o teu silêncio intacto em que dorme
O milagre das coisas que eram minhas.

... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

A ti eu voltarei após o incerto
Calor de tantos gestos recebidos
Passados os tumultos e o deserto
Beijados os fantasmas, percorridos
Os murmúrios da terra indefinida.

Em ti renascerei num mundo meu
E a redenção virá nas tuas linhas
Onde nenhuma coisa se perdeu
Do milagre das coisas que eram minhas.


Sophia de Mello Breyner Andresen, in Poesia I (1944)

Flor do Mar


"AS ONDAS

- «Menino Bartolomeu,
nós somos suas amigas;
havemos de lhe contar
lindas histórias antigas.

«Lindas histórias antigas
havemos de lhe contar, 
onde as velas dos navios
são como asas a voar.

«São como asas a voar
para longe, para além,
onde estão as belas Ilhas,
onde nunca foi ninguém.

«Onde nunca foi ninguém
porque ninguém sabe ainda
por onde fica o caminho
de tanta terra linda.

«De tanta terra linda
havemos de lhe falar...
Menino Bartolomeu,
ande, agora vá brincar.»

Ora aqui está a razão
porque ele tanto cismava:
é porque ouvia a canção
que o mar cantava...

Quando forem à praia, escutem bem,
e com certeza - assim lhes juro eu - 
hão-de ouvir, hão-de ouvir cantar também
o canto que embalou Bartolomeu..."

in Bartolomeu Marinheiro, versos de Afonso Lopes Vieira, ilustrações de Raul Lino (1912)

Os Passarinhos


O prometido é devido. Aqui fica mais uma ilustração de Raul Lino retirada do livro infantil "Animaes nossos amigos" (1911), acompanhada de um poema de Afonso Lopes Vieira, o autor:

Que bonitos, que engraçados,
que piquenos, coitadinhos,
os estouvados
dos passarinho!
-
A sua vida é cantar,
voar,
brincar pelo ar,
e alegrar
com seus chilreos
tão cheios
de graça e boa alegria,
a luz do dia!
-
Que bonitos, que contentes
e que espertos, coitadinhos,
os inocentes
dos passarinhos!
-
A sua vida é voar,
cantar,
brincar pelo ar,
e alegrar
em ranchos alegres e mui divertidos,
e quando poisam nos ramos floridos
parece que as flores estão a gorgear!...
-
Que bonitos, que engraçados,
os passarinhos,
se estão casados,
dentro dos ninhos,
e vão criando, com mil cuidados,
os seus meninos.
-
E então quando os pequeninos,
já mais crescidos,
podem sair?...
Vêm com elles os seus paes,
e elles piam,
piam,
piam,
muito contentes, os atrevidos,
assim a modo que a rir
e aos seus ais...
-
E os seus paes
estão mesmo a dizer:-«Vê lá se caes!
Por aqui, por aqui, por este lado,
devagarinho,
que tu és um passarinho
muito piqueno! Cuidado!...
Sim, quando fôres grande, então voarás;
serás capaz
de subir, de subir, de subir pelo ar,
e de ir subindo,
cantando e rindo,
sempre a voar,
lá tão alto, que o Sol fique pertinho
de ti, meu pobre e lindo passarinho!...»

A Rosácea da Princesas



É fundamental resgatar do purgatório alguns artistas e reavaliá-los sob a luz de um novo século. Caso em questão: o arquiteto Raul Lino.

Apreciador convicto da sua obra urbanística, descubro-me e descubro-o com novos olhos numa sua faceta tristemente negligenciada - a ilustração de obras literárias.

Esta maravilha que se intitula "A rosácea das Princesas" é um desenho aguarelado e avivado a ouro, feita para o conto de romance "Castelo do Amor" (1909) do olvidado Manoel de Sousa Pinto (1880-1934), grande amigo do arquiteto. Em "Castelo do Amor" um pajem busca o Amor. A certa altura diz-lhe "uma gentil mulher de olhos verdes" de nome Esperança: "Encontrá-lo-ás além, no seu velho castelo, novo de cada dia". Mais adiante no enredo, vencido o monstro da Desilusão, a irmã de Esperança, de nome Alegria, diz-lhe: "Passado o bosque dos loureiros, que são de vitória, descobrirás o laranjal, que é das donzelas. Colhe entre os louros um ramo, tece uma grinalda de laranjeira, e segue! Logo descobrirás a soleira de oiro do velho castelo novo em cada hora".

Se como eu, ficaram com sede de mais, prometo que irei fazer mais publicações sobre este exímio artista. Prometo.


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