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As noites e o jardim


Em todos os jardins

Em todos os jardins hei-de florir
Em todos beberei a lua cheia,
Quando enfim no meu fim eu possuir
Todas as praias onde o mar ondeia.

Um dia serei eu o mar e a areia,
A tudo quanto existe me hei-de unir
E o meu sangue arrasta em cada veia
Esse abraço que um dia se há-de abrir.

Então receberei no meu desejo
Todo o fogo que habita na floresta
Conhecido por mim como num beijo.

Então serei o ritmo das paisagens,
A secreta abundância dessa festa
Que eu via prometida nas imagens.

Sophia de Mello Breyner Andresen, in Poesia (1944)

Himorogi

«Há lugares sagrados, sabe? Mas isso são coisas que se escrevem nos contos e nos poemas e que não se dizem numa entrevista. É a casa da Granja que surge no poema "Casa branca em frente ao mar", no conto "A Casa" e n'A Menina do Mar. A Menina do Mar é inspirada numa história que a minha mãe me contava: nos rochedos morava uma menina muito pequena... Essa menina representava para mim a felicidade perfeita porque almoçava no mar, dormia no mar, vivia no mar...»

Sophia de Mello Breyner Andresen

Cidades justas


A forma justa

Sei que seria possível construir o mundo justo
As cidades poderiam ser claras e lavadas
Pelo canto dos espaços e das fontes
O céu o mar e a terra estão prontos
A saciar a nossa fome do terrestre
A terra onde estamos - se ninguém atraiçoasse - proporia
Cada dia a cada um a liberdade e o reino
- Na concha na flor no homem e no fruto
Se nada adoecer a própria forma é justa
E no todo se integra como palavra em verso
Sei que seria possível construir a forma justa
De uma cidade humana que fosse
Fiel à perfeição do universo

Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco
E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo

Sophia de Mello Breyner Andresen in O Nome das Coisas (1977)

Despojos do dia


Infância deveria sempre rimar com abundância. De afetos. De família. De dias cálidos e ensolarados. De brincadeiras sãs em ruas sem carros. De novos amigos. De simples milagres diários. De olhares limpos. Como o deste retrato, o jovem José Alberto Reis Pereira, pintado pelo pai, Julio, irmão de José Régio.

Nesta época do ano, tão avassaladora no seu vesgo consumismo, Sophia vem de novo ao meu encontro, recuperando uma outra publicação minha sobre como me libertar de materialismos supérfluos e sem sentidos.

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«Dai-me a casa vazia e simples onde a luz é preciosa. Dai-me a beleza intensa e nua do que é frugal. Quero comer devagar e gravemente como aquele que sabe o contorno carnudo e o peso grave das coisas.
Não quero possuir a terra mas ser um com ela. Não quero possuir nem dominar porque quero ser: esta é a necessidade.
Com veemência e fúria defendo a fidelidade ao estar terrestre. O medo do ter perturba e paralisa e desvia em seus circuitos o estar, o viver, o ser. Dai-me a claridade daquilo que é exactamente o necessário. Dai-me a limpeza de que não haja lucro. Que a vida seja limpa de todo o luxo e de todo o lixo. Chegou o tempo da nova aliança com a vida.»

Centenário


O poeta escreve não para dizer o que sabe, mas para saber o que sabe.

Sophia de Mello Breyner Andresen

A voz do mar


Sophia, sempre Sophia a invadir-me os meus dias. Hoje, ao ler o conto Praia incluído nos seus «Contos Exemplares», encontro estas linhas tão em sintonia com o que por aqui escrevi ontem. É o mar, sempre o mar a invadir-me.

"Cá fora, mal passámos a porta que dava para a varanda, o grande sopro do mar cobriu-nos, rodeou-nos, invadiu-nos.
O nevoeiro tinha transfigurado tudo.
Agora só cheirava a mar. Um perfume apaixonado de algas escorria das árvores. Lua e estrelas não se viam. Nem os plátanos se viam. Só se viam muros brancos no nevoeiro branco. Tudo estava imóvel e suspenso.
Só a voz do mar se ouvia, espantosamente real, recriando-se incessantemente.
E parecia que os grandes, verdes e violentos espaços marinhos, como sendo o nosso próprio destino, nos chamavam."

Kosmos

«Quando na praia apanhamos uma concha aquilo que profundamente nos toca é isto: a forma que temos na mão é uma forma que não podia ser de outra maneira. É como se na concha estivesse escrito o pensamento do universo. Ela é verdadeiramente o fruto dum Kosmos, o fruto dum mundo ordenado, a palavra que confirma a nossa confiança.

Assim também no corpo humano o artista grego lê a ordem do mundo onde está.

E por isso falar do nu na arte grega é sempre falar da relação do homem com o divino.»


Sophia de Mello Breyner Andresen, in O Nu na Antiguidade Clássica (1975)

Alvas memórias

Casa branca em frente ao mar enorme,
Com o teu jardim de areia e flores marinhas
E o teu silêncio intacto em que dorme
O milagre das coisas que eram minhas.

... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

A ti eu voltarei após o incerto
Calor de tantos gestos recebidos
Passados os tumultos e o deserto
Beijados os fantasmas, percorridos
Os murmúrios da terra indefinida.

Em ti renascerei num mundo meu
E a redenção virá nas tuas linhas
Onde nenhuma coisa se perdeu
Do milagre das coisas que eram minhas.


Sophia de Mello Breyner Andresen, in Poesia I (1944)

As dores de Pã

Tenho tido um estio de dias muito ativos, quase atléticos. Já não me conhecia deste jeito, quase enjeitado de uma idade que se quer ainda plena de vigor físico.

Sinto-me habitação vandalizada, a ranger por reparos urgentes. Portas e janelas com tintas estaladas e secas de sóis impiedosos. E dores, muitas dores.

Nem a propósito, encontro este poema da sábia Sophia, ao folhear um seu livro numa das minhas incursões regulares pelas livrarias dos meus roteiros de tempos mais livres.



Os troncos das árvores doem-me como se fossem os meus ombros
Doem-me as ondas do mar como gargantas de cristal
Dói-me o luar como um pano branco que se rasga.


Sophia de Mello Breyner Andresen, in Coral (1950)

O meio da vida

A obra de Sophia, cujo centenário do seu nascimento se comemora ao longo deste ano com inúmeras atividades e iniciativas, é prenhe de simbolismos e eterna no seu redescobrir.

Não fugindo à regra, recupero um pequeno excerto de um dos seus 'Contos Exemplares' - "A Viagem". E a sua descoberta afirma-se certeira no meu percurso de vida.

"A estrada ia entre campos e ao longe, às vezes, viam-se serras. Era o princípio de Setembro e a manhã estendia-se através da terra, vasta de luz e plenitude. Todas as coisas pareciam acesas.
E, dentro do carro que os levava, a mulher disse ao homem:
- É o meio da vida.
Através dos vidros, as coisas fugiam para trás. As casas, as pontes, as serras, as aldeias, as árvores e os rios fugiam e pareciam devorados sucessivamente. Era como se a própria estrada os engolisse.
Surgiu uma encruzilhada. Aí viraram à direita. E seguiram.
- Devemos estar a chegar - disse o homem.
E continuaram.
Árvores, campos, casas, pontes, serras, rios, fugiam para trás, escorregavam para longe.
A mulher olhou inquieta em sua volta e disse:
- Devemos estar enganados. Devemos ter vindo por um caminho errado.
- Deve ter sido na encruzilhada - disse o homem, parando o carro.
- Virámos para o Poente, devíamos ter virado para o Nascente. Agora temos de voltar até à encruzilhada.
A mulher inclinou a cabeça para trás e viu quanto o Sol já subira no céu e como as coisas estavam a perder devagar a sua sombra. Viu também que o orvalho já secara nas ervas da beira da estrada.
- Vamos - disse ela.
O homem virou o volante, o carro deu meia volta na estrada e voltaram para trás."

A menina do Mar

Viver sem o mar à minha beira é impensável. Habituei-me a ele. Talvez por ter crescido sempre a seu lado. Sophia perceber-me-ia. Dedicou-lhe muitos dos seus poemas. Deixo-vos aqui um dos meus preferidos. O primeiro de muitos sobre o Mar.

Pudera eu ter assim a voz tão cristalina e depurada. Tenho-te a ti, Mar. E basta-me por ora.


Fundo do mar


No fundo do mar há brancos pavores,
Onde as plantas são animais
E os animais são flores.

Mundo silencioso que não atinge
A agitação das ondas.
Abrem-se rindo conchas redondas,
Baloiça o cavalo-marinho.
Um polvo avança
No desalinho
Dos seus mil braços,
Uma flor dança,
Sem ruído vibram os espaços.

Sobre a areia o tempo poisa
Leve como um lenço.

Mas por mais bela que seja cada coisa
Tem um monstro em si suspenso.



Sophia de Mello Breyner Andresen
Obra Poética I


gaveta de arrumos