As noites e o jardim

Quando enfim no meu fim eu possuir
Todas as praias onde o mar ondeia.
A tudo quanto existe me hei-de unir
E o meu sangue arrasta em cada veia
Esse abraço que um dia se há-de abrir.
Todo o fogo que habita na floresta
Conhecido por mim como num beijo.
A secreta abundância dessa festa
Que eu via prometida nas imagens.
Sophia de Mello Breyner Andresen, in Poesia (1944)
quarta-feira, agosto 19, 2020 | Etiquetas: Nostalgias, Sophia de Mello Breyner Andresen | 0 Comments
Himorogi
terça-feira, julho 07, 2020 | Etiquetas: Ilustração, Japonismo, Mar, Sophia de Mello Breyner Andresen | 0 Comments
Cidades justas
A forma justa
Sei que seria possível construir o mundo justo
As cidades poderiam ser claras e lavadas
Pelo canto dos espaços e das fontes
O céu o mar e a terra estão prontos
A saciar a nossa fome do terrestre
A terra onde estamos - se ninguém atraiçoasse - proporia
Cada dia a cada um a liberdade e o reino
- Na concha na flor no homem e no fruto
Se nada adoecer a própria forma é justa
E no todo se integra como palavra em verso
Sei que seria possível construir a forma justa
De uma cidade humana que fosse
Fiel à perfeição do universo
Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco
E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo
Sophia de Mello Breyner Andresen in O Nome das Coisas (1977)
terça-feira, maio 05, 2020 | Etiquetas: Fotografia, Poesia, Sophia de Mello Breyner Andresen | 0 Comments
Despojos do dia
Nesta época do ano, tão avassaladora no seu vesgo consumismo, Sophia vem de novo ao meu encontro, recuperando uma outra publicação minha sobre como me libertar de materialismos supérfluos e sem sentidos.
..................................................................................................................
«Dai-me a casa vazia e simples onde a luz é preciosa. Dai-me a beleza intensa e nua do que é frugal. Quero comer devagar e gravemente como aquele que sabe o contorno carnudo e o peso grave das coisas.
Não quero possuir a terra mas ser um com ela. Não quero possuir nem dominar porque quero ser: esta é a necessidade.
Com veemência e fúria defendo a fidelidade ao estar terrestre. O medo do ter perturba e paralisa e desvia em seus circuitos o estar, o viver, o ser. Dai-me a claridade daquilo que é exactamente o necessário. Dai-me a limpeza de que não haja lucro. Que a vida seja limpa de todo o luxo e de todo o lixo. Chegou o tempo da nova aliança com a vida.»
terça-feira, dezembro 10, 2019 | Etiquetas: Desenho, Irmãos Reis Pereira, Novos Fôlegos, Sophia de Mello Breyner Andresen | 0 Comments
Centenário
O poeta escreve não para dizer o que sabe, mas para saber o que sabe.
Sophia de Mello Breyner Andresen
quarta-feira, novembro 06, 2019 | Etiquetas: Ilustração, Poesia, Sophia de Mello Breyner Andresen | 0 Comments
A voz do mar
Sophia, sempre Sophia a invadir-me os meus dias. Hoje, ao ler o conto Praia incluído nos seus «Contos Exemplares», encontro estas linhas tão em sintonia com o que por aqui escrevi ontem. É o mar, sempre o mar a invadir-me.
"Cá fora, mal passámos a porta que dava para a varanda, o grande sopro do mar cobriu-nos, rodeou-nos, invadiu-nos.
O nevoeiro tinha transfigurado tudo.
Agora só cheirava a mar. Um perfume apaixonado de algas escorria das árvores. Lua e estrelas não se viam. Nem os plátanos se viam. Só se viam muros brancos no nevoeiro branco. Tudo estava imóvel e suspenso.
Só a voz do mar se ouvia, espantosamente real, recriando-se incessantemente.
E parecia que os grandes, verdes e violentos espaços marinhos, como sendo o nosso próprio destino, nos chamavam."
sábado, outubro 12, 2019 | Etiquetas: Carl Olof Larsson, Mar, Pintura, Sophia de Mello Breyner Andresen | 0 Comments
Kosmos
Assim também no corpo humano o artista grego lê a ordem do mundo onde está.
E por isso falar do nu na arte grega é sempre falar da relação do homem com o divino.»
Sophia de Mello Breyner Andresen, in O Nu na Antiguidade Clássica (1975)
terça-feira, setembro 10, 2019 | Etiquetas: Albrecht Dürer, Sophia de Mello Breyner Andresen | 0 Comments
Alvas memórias
Com o teu jardim de areia e flores marinhas
E o teu silêncio intacto em que dorme
O milagre das coisas que eram minhas.
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
A ti eu voltarei após o incerto
Calor de tantos gestos recebidos
Passados os tumultos e o deserto
Beijados os fantasmas, percorridos
Os murmúrios da terra indefinida.
Em ti renascerei num mundo meu
E a redenção virá nas tuas linhas
Onde nenhuma coisa se perdeu
Do milagre das coisas que eram minhas.
Sophia de Mello Breyner Andresen, in Poesia I (1944)
quinta-feira, agosto 22, 2019 | Etiquetas: Ilustração, Mar, Poesia, Raul Lino, Sophia de Mello Breyner Andresen | 0 Comments
As dores de Pã
Sinto-me habitação vandalizada, a ranger por reparos urgentes. Portas e janelas com tintas estaladas e secas de sóis impiedosos. E dores, muitas dores.
Nem a propósito, encontro este poema da sábia Sophia, ao folhear um seu livro numa das minhas incursões regulares pelas livrarias dos meus roteiros de tempos mais livres.
Pã
Os troncos das árvores doem-me como se fossem os meus ombros
Doem-me as ondas do mar como gargantas de cristal
Dói-me o luar como um pano branco que se rasga.
Sophia de Mello Breyner Andresen, in Coral (1950)
quarta-feira, agosto 14, 2019 | Etiquetas: Fotografia, Mitologias, Nostalgias, Poesia, Sophia de Mello Breyner Andresen | 0 Comments
O meio da vida
Não fugindo à regra, recupero um pequeno excerto de um dos seus 'Contos Exemplares' - "A Viagem". E a sua descoberta afirma-se certeira no meu percurso de vida.
"A estrada ia entre campos e ao longe, às vezes, viam-se serras. Era o princípio de Setembro e a manhã estendia-se através da terra, vasta de luz e plenitude. Todas as coisas pareciam acesas.
E, dentro do carro que os levava, a mulher disse ao homem:
- É o meio da vida.
Através dos vidros, as coisas fugiam para trás. As casas, as pontes, as serras, as aldeias, as árvores e os rios fugiam e pareciam devorados sucessivamente. Era como se a própria estrada os engolisse.
Surgiu uma encruzilhada. Aí viraram à direita. E seguiram.
- Devemos estar a chegar - disse o homem.
E continuaram.
Árvores, campos, casas, pontes, serras, rios, fugiam para trás, escorregavam para longe.
A mulher olhou inquieta em sua volta e disse:
- Devemos estar enganados. Devemos ter vindo por um caminho errado.
- Deve ter sido na encruzilhada - disse o homem, parando o carro.
- Virámos para o Poente, devíamos ter virado para o Nascente. Agora temos de voltar até à encruzilhada.
A mulher inclinou a cabeça para trás e viu quanto o Sol já subira no céu e como as coisas estavam a perder devagar a sua sombra. Viu também que o orvalho já secara nas ervas da beira da estrada.
- Vamos - disse ela.
O homem virou o volante, o carro deu meia volta na estrada e voltaram para trás."
segunda-feira, junho 17, 2019 | Etiquetas: Ilustração, Livros, Sophia de Mello Breyner Andresen | 0 Comments
A menina do Mar
Viver sem o mar à minha beira é impensável. Habituei-me a ele. Talvez por ter crescido sempre a seu lado. Sophia perceber-me-ia. Dedicou-lhe muitos dos seus poemas. Deixo-vos aqui um dos meus preferidos. O primeiro de muitos sobre o Mar.
Pudera eu ter assim a voz tão cristalina e depurada. Tenho-te a ti, Mar. E basta-me por ora.
Fundo do mar
No fundo do mar há brancos pavores,
Onde as plantas são animais
E os animais são flores.
Mundo silencioso que não atinge
A agitação das ondas.
Abrem-se rindo conchas redondas,
Baloiça o cavalo-marinho.
Um polvo avança
No desalinho
Dos seus mil braços,
Uma flor dança,
Sem ruído vibram os espaços.
Sobre a areia o tempo poisa
Leve como um lenço.
Mas por mais bela que seja cada coisa
Tem um monstro em si suspenso.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Obra Poética I
domingo, abril 26, 2009 | Etiquetas: Mar, Poesia, Sophia de Mello Breyner Andresen | 0 Comments
- A.E. Housman
- Aaron Smith
- Adolphe William Bouguereau
- Afonso Lopes Vieira
- Albrecht Dürer
- Alexandre Séon
- Alphonse Mucha
- Antero de Quental
- Antonia Pozzi
- António Botto
- António Manuel da Fonseca
- Aquilino Ribeiro
- Arantzazu Martinez
- Arcimboldo
- Arte Folclórica
- Arte Nova
- Arthur Rackham
- Arthur Rimbaud
- Artur Pastor
- Aubrey Beardsley
- Audrey Kawasaki
- August Strindberg
- Augusto Gil
- Aya Kato
- Bailado
- Capa e Espada
- Carl Olof Larsson
- Carolus-Duran
- Charles Baudelaire
- Cinema
- Citações
- Claude Debussy
- Claude Monet
- Colagens
- David Hamilton
- David Lachapelle
- Decadentismo
- Desenho
- Domenico Baccarini
- Edgar Allan Poe
- Émile Bernard
- Esoterismos
- Evarist De Buck
- Fernand Khnopff
- Fotografia
- Francis Bacon
- Friedrich Nietzsche
- George Orwell
- Georges Antoine Rochegrosse
- Georges Barbier
- Goldfrapp
- Gravura
- Gustave Doré
- Hans Christian Andersen
- Harry Clarke
- Hokusai
- Horst P. Horst
- Ilustração
- Ilya Repin
- Irmãos Reis Pereira
- James Bidgood
- Japonismo
- Jean Cocteau
- Jiří Trnka
- Joaquín Sorolla Bastida
- John Addington Symonds
- John Martin
- John Milton
- John William Waterhouse
- Joris-Karl Huysmans
- Joséphin Peladan
- Konstantin Somov
- Léon Bakst
- Leon Spilliaert
- Lewis Carroll
- Livros
- Lord Edwin Weeks
- Máculas
- Manicómios
- Manuel Teixeira Gomes
- Mar
- Maxfield Parrish
- Mitologias
- Mochos
- Música
- Nick Drake
- Nikolaos Lytras
- Nostalgias
- Novalis
- Novos Fôlegos
- Onirismos
- Orientalismos
- Oscar Wilde
- Pablo Picasso
- Pintura
- Poesia
- Poster
- Rainer Maria Rilke
- Raul Lino
- Richard Avedon
- Rudolf Nureyev
- Rudolf Tewes
- Rumi
- Rupert Bunny
- Ruy Belo
- Salomé
- Salvador Dali
- Sarah Bernhardt
- Simbolismo
- Slideshow
- Sophia de Mello Breyner Andresen
- Stéphane Mallarmé
- Surrealismo
- Tadanori Yokoo
- The Owl Service
- Tim Burton
- Tori Amos
- Valter Hugo Mãe
- Vania Zouravliov
- Vaslav Nijinsky
- Vittorio Zecchin
- Walton Ford
- Xilogravura Japonesa
- Yukio Mishima
- Zinaida Serebriakova
gaveta de arrumos








